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Alliciare et seducere

Ano ruim... Vida ruim...

Esse peste de cachorro que não para de ganir, está com fome, eu também estou! Cachorro se vira, tomba lata, abre saco e sempre acaba achando o que comer. Fui ali à padaria tentar cavar ao menos um pão, me deram. Teve um cara que me ofereceu cachaça, até parece que todo catador é pau d’água!
 Mas passou um cara num carro e me deu uma quentinha, fiquei mais bem servido. Parecia do Exército, aquele, da Salvação.

Ta chovendo pacas, meu colchão já molhou tudo, mas, vou ficar sentado aqui embaixo da carrocinha e tentar dormir assim. Dividi a quentinha com o cachorro, agora ele ficou quieto. Não é fácil, não me entreguei não, ainda vai clarear pra mim...

Mas também não estou sozinho na desgraça, não que isso me conforte, mas, tem jeito de virar a mesa. Tem gente que vem de tão longe e se acaba por aqui, tenho visto o cidadão de lugar nenhum se aproximando da minha situação, devagar vai caindo pelas tabelas e logo chega, sem esperança. Até tento consolar, mas, o camarada já chega pinéu, não dá lado não, não tem jeito, melhor não se meter, cada um tem sua estrada...

Tem uns bolivianos que, logo cedo, dia de semana, se acabam na cachaça e depois ficam violentos e brigam entre eles. Só dá sangue suor e cachaça. Nem polícia aparece essas horas e eu fico daqui vendo os futuros moradores do meu condomínio ”Deus Dará”. Já tem bastante deles sem destino, acaba morrendo, credo...

Tava guardando uns alumínios, fios de cobre, isto dá algum dinheiro, mas, veio um carro da prefeitura limpar o imóvel abandonado onde eu escondia minha catança de rua e levou tudo, acho que eles vendem também. Devem ganhar pouco também, é... O mundo é pra todos, né não distinto?

Pois é, eu não bebo não senhor, não fumo também, já é muito duro sem vício, se tivesse então, Vixe! Melhor deixar quieto, bora parar com essa proza, né não?

Tomo, tomo banho sim senhor, tem um chuveiro na quadra aberta da Polícia militar, é frio, mas, me deixam tomar banho lá, lavo as poucas roupas que tenho também. Em troca limpo o pátio todinho, é justo, eu acho... Também não pode ser todo dia não senão fico só trabalhando em troca de banho, quero juntar um dinheirinho e voltar pra casa, acho que eu consigo, com fé em Deus!

Não senhor, ainda tem gente pior de situação que eu! Tinha uma moça que já tava bem louquinha, coitada... A cidade inteira comia, era a rainha dos vagabundos, tinha moço fino que usava ela também, tudo usava droga. Mas a moça foi definhando, definhando... Um dia amanheceu durinha no pé daquele pinheirinho na esquina, ta vendo?

É... Vou te contar um causo que o senhor vai entender que a gente não pode reclamar, tem sempre um pior, um virundum birruga nucudum! Tinha um cara que perdeu um braço e vivia se lamentando, querendo se matar e um dia viu um parceiro de má sorte que não tinha os dois braços e ria feito bandeira despregada. Curioso e enraivecido com a alegria sem sentido do “desbraçado” disse:- Não tenho um braço, vivo raivoso por isso, quero morrer e vejo você sem os dois e feliz, rindo feito louco, qual é? A resposta é que o sujeito tava com coceira no fiofó e não tinha como resolver, já que não tinha nenhum dedo, nem braços!... Pois é, a cruz de cada um sempre tem o peso certo!

 Sempre aparece gente morta por aqui, mas, pra conversa só o senhor mesmo, o povo passa com medo, nojo, ninguém se importa não, cada um cada um, né não?

Sei não senhor... Já guardei coisa pras pessoas, já tomei conta de carro, já lavei também, tudo na rua, mas, carregar o que o senhor ta me pedindo, sei não...
Polícia? Nunca me revistou não senhor, pra que? Zé Ninguém que sou...

Sei sim, entendo o senhor. Quer mudar minha vida, um bom homem, começa devagar, vou ganhando, atenta a gente, sim senhor! Atenta... O que é que eu vou fazer? Sei... Levo dentro da carroça, de um lado pra outro, um me traz as coisas, o outro pega e leva, não sei quem pega e nem quem leva... Ta certo, não pergunto não, não interessa o que eu levo e trago, certo? Pois é, aceito sim senhor, experimentar primeiro, né? Amanhã então? Conto pra ninguém não senhor! O senhor? não sei quem é não...

Eu sabia que um dia ia clarear! Ano ruim, mas, parece que a vida vai mudar... Serviço fácil, bom dinheiro, agora volto pra casa! Volto! Acho mesmo que todo mundo é louco por aqui. Mas este homem quer me ajudar, pra que rejeitar? Não se importa em saber quem sou, de onde venho, nem pra onde vou. É... Dinheiro não tem nome, não tem casa, não tem língua , não tem porta fechada, manda e não pede, pior que o diabo...
Paulo de Tarso
Enviado por Paulo de Tarso em 17/06/2006
Reeditado em 24/09/2006
Código do texto: T177429
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Sobre o autor
Paulo de Tarso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 60 anos
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Paulo de Tarso