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Elogio aos sete pecados capitais: a inveja

De todos os pecados capitais, a inveja parece ser o mais indefensável. Para muitas pessoas – conheço várias - este é o pior sentimento humano; mas, com o passar dos anos e o amontoar das rugas, a vida nos ensina que nada pode ser apenas preto ou branco. Há momentos em que devemos enxergar em cinza; em outros, mesclado; às vezes, xadrez; outras vezes, com bolinhas. Tudo isso para dizer que este é o elogio da inveja.
Partindo com o contexto organizacional. O que seria da competitividade sem a inveja, o combustível que conduz a melhorias? Até há um termo em inglês que sofistica o pecado: benchmarking. O que significa isso senão um modelo invejado? Em termos genéricos, no mercado de qualquer segmentação só há espaço louvável para os dois primeiros lugares. E o segundo lugar só consegue destaque porque acirra a competição com o primeiro do ranking, tentando oferecer produto e/ou serviço com qualidade igual ou superior ao primeiro da lista. Sem intenção de fazer propaganda, vou ilustrar a idéia: a Pepsi não seria a Pepsi se não desejasse ser uma Coca-cola.
Ainda sobre o ambiente corporativo, só a inveja da nova colega de trabalho do marido, uma benchmark loura de 1,80m de altura, 1,00m de pernas, formas esculturais, bonita, sexy, charmosa, atraente e, o que parece destoar de tudo, inteligente, fará a esposa freqüentar academia de ginástica, ir ao salão de beleza toda semana, fazer dieta e voltar a estudar. Enfim, deixar de ser desleixada. É... a inveja abala nossa pouca vaidade, aumenta nossa auto-estima e nos incita o autodesenvolvimento. Até lembra a cobiça, mas este é outro pecado capital de que já falei.
Embora poucos admitam, sentimos inveja o tempo todo. E reparem que há inveja para toda categoria de gente: a) perua pobre, passeando pelo shopping center, quase infarta ao ver sua arqui-inimiga (uma perua pouco menos pobre) saindo da loja H. Stern; b) mulheres acima do peso quando vêem travestis com um corpinho a la Gisele Bünchen quase têm um ataque histérico; c) homens franzinos até tentam disfarçar ao ver o colega saradão atraindo todas as garotas, mas à surdina vão procurar uma academia de ginástica para tentar ficar atraente também; d) irmão caçula ao perceber que o irmão mais velho ganhou um celular de presente de Natal enquanto ele teve que se contentar com um presente que nenhum amiguinho mais ganha - porque está fora de moda -, quase quebra o mimo presenteado: uma bicicleta novinha em folha; e) solteironas têm xilique, de pura indignação, ao constatarem que até a vizinha mais desprovida de beleza já encontrou sua cara-metade. E assim é a vida...
Sob outro foco, se tentarmos uma análise sem preconceitos, perceberemos que a inveja deve ter sua importância reconhecida também por causa de dois outros sentimentos que a acompanha: admiração e superação. Não somente no contexto profissional, como considerei alguns parágrafos acima, mas também na vida pessoal e em outros papéis sociais que temos que cumprir.
Admiração sem inveja não é admiração. Amizade sem admiração não é amizade. Já estamos acostumados à associação de amizade a admiração, mas a inveja nunca é anunciada, sempre fica nos bastidores. Os mais ousados até admitem sentir uma “inveja branca” ou “inveja boa” do amigo, mas isso não passa de eufemismo. É inveja e ponto. Quando dizemos que temos inveja de alguma característica do amigo é como dizer que o admiramos. Não há maldade nisso.
Nas Olimpíadas, se o segundo colocado não invejar o primeiro, não se sentirá impulsionado a melhorar sempre, superando-se para conseguir o ouro na próxima tentativa. Bela prova de que inveja também pode conduzir à evolução.
Por fim, a inveja sempre nos ronda porque está diretamente relacionada aos dois verbos que permeam nossa existência de conflitos: ser e ter. Por mais injusto que possa parecer, vivemos de relação comparativa entre nós e os outros. Daí surgem os complexos de inferioridade e superioridade com os quais temos que lidar por todo o tempo. Deve ser por isso que Sartre afirmou que o inferno é o outro. Além da dificuldade em lidar com a inveja (a nossa e a dos outros) em meio coletivo, sofremos ainda mais ao percebê-la em nós mesmos e em seguida tentar sufocá-la. Isso tem trazido infelicidade em proporções difíceis de serem equacionadas porque fomos educados para cultivar os sentimentos bons e negar ou reprimir os maus. Como a inveja foi condenada pelos cristãos, temos dificuldade em admiti-la como uma emoção habitável em todo corpo/alma e não somente nos desgarrados e profanos. Com isso, pouco nos atentamos para o fato de que não precisamos classificar a humanidade e, principalmente, nós mesmos em seres “do bem” ou “do mal”. Todos somos gente. Apenas isso.
Carmem Lúcia
Enviado por Carmem Lúcia em 19/05/2005
Reeditado em 21/03/2006
Código do texto: T17914
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Sobre a autora
Carmem Lúcia
São Paulo - São Paulo - Brasil
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