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A Companheira que Veio do Alto

Desde a nossa vida intra-uterina (ponto-de-corte menos questionado pelos cientistas de plantão) e muito mais além..., já nos cansávamos de tanto ouvir falar na imprescindível e salutar necessidade do acasalamento entre os seres (de sexo oposto, diga-se de passagem):

“Gn 9:1  Abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra”.

“Mt 19:6  Assim já não são mais dois, mas uma só carne. Portanto o que Deus ajuntou, não o separe o homem”.

Mas Deus – ainda acompanhando essa premissa sectária – certamente não “sugeriu” a união com o fito tão-somente de povoar a terra e/ou minimizar o tédio que se instalaria no dia-a-dia dos solteiros do globo. O carro-chefe de tudo teve, também, por alavancagem a imprescindível instituição tácita da cumplicidade entre os pares.

Mister se fazia pactuar-se pontos de vista; desenhar projetos; formatar planos de trabalho e táticas bélicas, até, de sobrevivência; arquitetar e executar encargos e idéias nem sempre convenientes ao conhecimento do domínio público. Dividir responsabilidades e riscos, numa palavra.

Cumplicidade. Sim, cumplicidade (conivência). Este, por si só, é o vernáculo mais sucinto e apropriado para justificar a expressão registrada lá em Mateus 19:6 “...não são mais dois, mas uma só carne...”. Para tornar ao menos razoável a tolerância e o sentido do consórcio entre homem e mulher.

Então aportamos neste plano terrestre. Viemos sozinhos (na maioria das vezes, lógico. Lógico?) e sem maiores “compromissos”, até então. Pouco, ou quase nunca, nos recordávamos do plano, da “recomendação” Divinos, exceto porquanto inseridos indelevelmente no nosso id e latentes na memória pretérita.

Paulatinamente, todavia, a parte outrora submersa do iceberg insistia em emergir e, uma vez mais, ouvíamos a voz dos profetas, recordando-nos o pacto feito com o Senhor. Crescêramos e, por conseguinte, era chegada a hora. Urgia, assim, iniciarmos a caminhada em busca de nossa alma-gêmea. Da nossa outra metade.

Enfim, sós...

E a cumplicidade não tardou a mostrar-se utópica e efêmera. Surgiram, do nada, componentes e misturas “químicas” inteiramente estranhas e dissociadas de todos os planos e expectativas originais, tais como: O narcisismo, o ciúme, o estresse (conquanto este seja bem mais “moderno”) e tantos outros contratempos, revelando, assim, o mal planejamento e o nosso despreparo para levarmos a efeito a empreitada outrora outorgada aos nossos ancestrais. Aliás, nem mesmo eles o conseguiram conforme o acordado, haja vista depreender-se que quando Deus disse “... e enchei a terra...”, quis referir-se, salvo melhor juízo (D’Ele), a enchê-la de filhos, netos, bisnetos, enfim, de mais e mais gerações, ao passo que muitos dos nossos patriarcas a encheram foi de concubinas e outras “iguarias” (...).

Com isso, temos hoje, dentre outras “seqüelas”, casais que dividem a mesma cama, vivem sob o mesmo teto e, às vezes, comem até no mesmo prato, mas, em contrapartida, continuam “sós”, tal qual inquilinos de apartamentos em condomínios fechados, que, embora vizinhos e “cumprimentando-se” diuturnamente, vivem como o bicho-da-seda: hermeticamente fechados em seus casulos.

Assim, a cumplicidade, sadia e necessária, foi vencida e substituída pela disputa da hegemonia. A “queda-de-braço” é nos dias de hoje o esporte dominante. A corrida pela incansável e irracional conquista de mais e mais espaço; pela ocupação ilegal do “terreno” alheio e, sobretudo, a formação de verdadeiras ilhas entre os cônjuges, constituem a atmosfera que oxigena os relacionamentos.

Com efeito, não há mais interesse e tolerância na abordagem das questões mais singelas entre os casais. As oportunidades oferecidas pelos chás-da-tarde ou pelas ceias, por exemplo, perderam a vez para os programas de televisão, internet ou simplesmente para o recolhimento dos indivíduos, cada qual encastelado em suas próprias redomas.

A conversa franca e amistosa que, proativa, coibia esses descompassos e harmonizava a vida a dois, extrapolou os limites do “doméstico” e passou à arena dos divãs terapêuticos, dos bate-papos virtuais ou dos barzinhos de esquina, afunilando-se a ponto de bater às portas das Varas de Família.

É preciso, pois, conversarmos novamente com Deus. Só Ele seria o instrumento eficaz e o foro especializado para a repactuação do mútuo original.
Robério Matos
Enviado por Robério Matos em 20/06/2006
Reeditado em 20/06/2006
Código do texto: T179229

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Sobre o autor
Robério Matos
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 64 anos
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Robério Matos