APOCALIPSE

Meu destino está marcado pelo compasso da vida planetária. Vejo os animais cabisbaixos. Observo o pássaro cantor em plena atividade na antena de televisão, olhando para o horizonte e dizendo coisas que minha alma não gosta de ouvir. Sinto minha lebre inquieta a saltitar como se tentasse evitar uma tragédia. Os elefantes estão caminhando lentamente como se sentissem o peso da maldade humana nas suas costas. Os animais estão percebendo o que o homem finge ignorar. Eles não se escondem em máscaras metafóricas para não denunciar o caos que se agiganta. A carne consumida esgota nossas reservas de água potável. Para tudo o que fazemos utilizamos muita água. A vida depende dela. O homem ainda se vangloria de ser intelectual e julga-se sábio. Considera que seus satélites, lixos metálicos a vagar pelo céu, são sinônimos de evolução científica. Matam para se alimentar. Boi. Vaca. Carneiro. Galinha. Porco. Cachorro. Macaco. Ostra. Rã. Avestruz. Pato. Faisão. Tudo vira comida nessa corrida esfomeada e insana. O sangue jorra como chafariz, construído por um povo atropelado pela ansiedade. As matas cantam um som fúnebre. Há ecos que respondem com lágrimas. Há bichos que se enterram para não ouvir o lamento da natureza. Mas a terra também grita. O fogo. A água. O ar. Não há um espaço no planeta que não execute seu instrumento acompanhando a funesta canção do fim. E vejo pessoas em carrões luxuosos dirigindo para curtir as praias poluídas. Banham-se nas próprias fezes. O óleo das empresas petroleiras tingem suas peles. Infectam seus olhos, nariz e boca. O homem é um ser condenado a ingerir o veneno que ele mesmo fabricou. Os pombos correios se perdem. A luz do sol está sendo ofuscada pela fumaça das chaminés. O beija-flor acorda antes do tempo e adormece depois da hora sagrada ensinada pela Mãe Natureza. O inverno virou verão. O verão fez nascer o fruto. As flores apareceram sem ninguém esperar. Nevou no deserto. As águas dos bueiros encheram as ruas e avenidas das cidades. As pessoas foram expulsas de seus barracos e casas. Morrem crianças, jovens e adultos, afogados nessa água podre, produto do que defecamos e enviamos sem tratamento para o coração sagrado da Mãe Natureza. Os patos selvagens voam cada vez mais altos para se livrarem dos tiros dos malditos caçadores. São tão poucos que não se ouve mais seus chamados. O céu está em colapso. A terra há muito tempo vive sua agonia. Estou sendo trágico. Creio que exagero. Não vou escrever um apocalipse ecológico. Não preciso faze-lo. Os animais escrevem no céu, na terra, na água e no ar. Riscam com plumas, pelos e escamas, um verso único. A inteligência dos homens é uma grande e ridícula piada...sem graça.

AKENATHON
Enviado por AKENATHON em 15/09/2009
Código do texto: T1812236