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Uma crônica sobre nada

Ele acorda meio moído, como se saísse aos poucos de dentro de um caminhão de frigorífico que despencou ribanceira abaixo. O despertador não quer saber de nada, e continua apitando freneticamente, como uma mulher mal-comida. Sem perceber, ele passa uns 5 minutos tentando ignorar o despertador, fazendo cara de não tô nem aí. Estica o braço para abrir as persianas e deixar um pouco de luz entrar no quarto. Olha pro lado, vê a hora. Um minuto passa no visor. O vizinho de baixo já está em atividade. O rádio ligado, tocando um pagode que nunca deveria ter sido composto, de tamanha afronta que representa ao gênero musical. Por sorte a música está em seus momentos finais. Entra a locutora da rádio, dizendo que a rádio é um amor. Ele fica com vontade de mandar a rádio, o compositor da música e a locutora tomarem no cu. Pensando nisso ele levanta da cama.
Pega uma cueca na gaveta, liga seu próprio rádio e se dirige ao banheiro. No rádio, o programa de notícias com locutores metidos a engraçadinhos. Chega até a ser divertido porque os locutores parecem tão fora de contexto que chegam a ser divertidos. É como de um cara que conta uma piada sem graça mas que não percebe que estão rindo dele mesmo e não da piada.
Banho, barba, escovar os dentes, roupa. O maldito inverno não existe no Rio de Janeiro. Um sol que já denuncia um calor incômodo na hora do almoço aparece, tão insistente quanto o pagode que tocava no rádio do vizinho. Ele chega ao ponto de ônibus no horário de sempre, nem muito adiantado nem atrasado ainda, dependendo da boa vontade do trânsito de qualquer maneira. O ônibus demora o suficiente para fazê-lo ficar com vontade de pegar o executivo. Mas é besteira. Pagar mais caro, por um pouco mais de conforto, mas ainda assim chegando atrasado se o trânsito estiver ruim não vale a pena.
No ônibus, ele passa pela praia. A visão de um mar que reflete o azul do céu faz com que ele quase se sinta feliz. Não que não tenha seus motivos. Mas para se sentir feliz não basta o mar refletindo o sol. Precisa só um pouquinho mais.
Odemilson Louzada Junior
Enviado por Odemilson Louzada Junior em 25/06/2006
Código do texto: T182181
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Odemilson Louzada Junior
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 42 anos
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Odemilson Louzada Junior