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Meus aniversários

Aniversários me doem, principalmente os meus.

Nasci numa data ingrata, 30 de dezembro de 1987, acho o número 30 bonito e redondinho, acho dezembro um mês divertido e quente e o ano mil novecentos e oitenta e sete nem fede e nem cheira, ou seja, não tenho problemas com esses números, é complicado mas vou conseguir explicar, tenho sérias desavenças é quando esses números se enquadram no ano. Por que 30/12 fica exatamente entre o Natal e o Ano Novo? Praticamente os dias 26 ao 30 de dezembro são inexistentes, existem tais quais só na folhinha, essas datas são insignificantes para a maioria das pessoas, ninguém marca nada entre esses dias, no máximo uma viagem.

Eu desde criança sempre amei uma festa, uma agitação e quando você tem essa idade as maiores festas, os maiores eventos do ano são sempre festinhas de aniversários, de preferências as infantis que são mais coloridas e existe a possiblidade de você dançar Xuxa, não há nada tão bom para uma criança.

Eu sempre fui um freqüentor assíduo dessas festinhas, muitas com temática da Disney, sabia até em que época do ano tinha mais festas. Meu docinho predileto inicialmente era o brigadeiro, o mais popular de todos, logo me decidi pelo cajuzinho, e assim era até melhor, menos concorrência pelo predileto, nas fotinhas célebres e indispensáveis do aniversariante em frente ao seu bolo e ao lado dos seus amiguinhos eu sempre arrumava um jeito de estar do lado dele, não importava quem fosse e para fazer gracinha sem graça eu sempre pegava um brigadeiro e colocava na boca na hora do "Xis" ou então se preparava para por na boca fazendo uma cara de peralta. E quando a mãe do aniversariante pedia que todos se retirassem de perto do filho para ela bater uma foto só dele e do bolo eu saia de lá ferido e magoado de uma forma incrível. Minha maior espectativa era da entrega do primeiro pedaço do bolo, eu sempre guardava uma esperança que eu fosse o escolhido, quando isso acontecia eu não me agüentava de satisfação, com o passar dos anos eu aprendi duas técnicas para ganhar o primeiro pedaço, uma era na festa ser o melhor amiguinho do aniversariante e a outra e menos falível era olhar fixamente nos olhos do aniversariante, assim ele ficaria intimado ou lembraria da minha existência naquele mar de pessoas anciosas para o primeiro pedaço e acabaria dando para mim. Na hora de apagar as velas eu me segurava para não dar aquela ajudinha mesmo quando não solicitada, podia ser com assopro, com o dedo, mas eu queria ter o prazer de apagar uma velinha, nem que fosse aquela que não queria apagar.

Nas festas dos outros eu já imaginava como seria a minha na data inexistente, o que poderia ter e não ter, eu já eu era um produtor de eventos naquela época, só faltava fazer a lista das músicas que tocariam, mas como não era um bom conhecedor musical sempre me abstive. Deveria ter na festa planejada muitos brigadeiros e cajuzinhos, os beijinhos de maneira alguma deveria conter um cravo, as balas de cocos deveriam ser ao máximo possível coloridas e o bolo sem glacê, sem recheios mirabolantes, coisa simples de chocolate, brigadeiro ou no máximo prestígio. Um dos pontos mais importantes eram os convidados, deveriam ter muitos, nada para os mais íntimos, eu até escrevia recadinhos individuais que serveriam posteriormente como convites, detalhe eu fazia isso meses e meses antes da data. Eu também sonhava com os presentes que eu iria ganhar, queria mesmo era encher minha cama de presentes, de preferência é claro com brinquedos, eu já tinha visto essa cena na casa de alguém. Na minha foto indispensável do bolo eu iria escolher meu melhor amigo da época para estar do meu lado e como vingança de todos os aniversários faria questão de uma foto só minha e meu bolo! E claro nas minhas fotos nada de poses bobas, eu ficaria lá como se fosse um príncipe coberto de orgulho no seu momento sublime. E previamente calculado já teria escolhido quem ganharia o primeiro pedaço do meu bolo de chocolate, a vontade mesmo era que fosse meu, pois eu merecia, era eu mesmo que elaborava minha festa na imaginação! Mas era anti-ético e muita prepotência da minha parte fazer isso, então eu escolhia um a dedo, igualmente como os convites eu já sabia muitos meses antes quem ganharia o primeiro pedaço do bolo, o segundo pedaço sem discussão era meu e ninguém tascava! Na hora do Parabéns queria ver quem era o louco que invés de cantar "é pique, é pique, é hora, é hora, é hora", cantasse "é pica, é pica, é rola, é rola, é rola", juro que eu jogava o bolo na cabeça do infeliz, e se algum engraçadinho que não tem noção do perigo apagasse minha vela eu esganava o coitado, por isso eu queria que nenhuma criança com menos de 5 anos perto de mim e do meu bolo. Em toda festinha eu arquitetava uma festa minha parecidíssima como essa descrita.
 
Só que nunca tive uma festa de aniversário.

Sem fazer injustiça eu já tive um protótipo de festa sim, sei lá qual era o aniversário, se era o oitavo, o nono ou o décimo, naquele ano eu queria porque queria uma festa, mesmo a grande maioria dos meus conhecidos viajando e meus amigos de escola eu estando sem contato algum naquele momento. Para pressionar minha mãe eu falei para todo mundo que teria uma grande festança na minha casa tal horário, avisei minha mãe só depois que teve que preparar algo em menos de 4 horas, numa data inexistente e com pouco tempo só poderia mesmo fazer uma festinha totalmente caseira, sem muitos caprichos dos meus sonhos. Foi um bolo de Coca-Cola e chocolate, alguns doces e refrigerante. Mas nem de longe era isso que eu queria, isso não era nada perto do que eu imaginava o ano inteiro, eu guardo na memória até hoje essa festa como uma das piores lembranças da minha vida, me senti humilhado e envergonhado perante os 5 ou 6 convidados que compareceram. Até presente eu ganhei nesse protótipo mal feito, não me lembro agora o que foi, só sei que eu não queria aceitar, não achava certo ganhar um bom presente sendo que ofereci uma lástima de festa. Depois da breve festinha sem Xuxa e muito mais fui para minha cama chorar de decepção e vergonha até meus olhos ficarem inchados. Depois disso mais nem protótipos eu tive, passava todos meus aniversários trancados no meu quarto chorando até minha garganta cansar e minhas lágrimas secarem. Teve um aniversário ainda na infância que eu viajei com meu pai para a casa da minha avó num desses dias inexistentes, chegando dia 30/12 não recebi aos menos o cumprimento deles que ainda por cima viajaram e fiquei a tarde toda perambulando pela cidadezinha chorando, essa é outra lembrança que assombra minha mente até hoje.

Sempre nos dias antecedentes e sucedidos da tal data ingrata eu ficava depressivo, não triste, mas depressivo mesmo, alguns anos até passei minhas férias escolares inteira deprimido, logo nunca achei muita graça de comemorar o Natal e o Ano Novo. Para mim esses dias eram ruins, a não ser pela farta comida, e sempre doia receber um feliz aniversário no Natal ou no dia 31 de dezembro, já que as pessoas não fazem muita distinção entre esse dias, são todos iguais para elas, são dias de festas e viagens. Também no meu aniversário eu odiava ouvir Feliz Aniversário, se alguém dissesse essa frase corria o perigo de ouvir "Não estou vendo nada de feliz!", e se alguém perguntasse por que tanto rancor do meu aniversário eu mentia dizendo que simplesmente não gostava da idéia de ficar mais velho, na verdade eu não queria relevar que os piores dias da minha vida sempre aconteciam nessa data nefasta.

Na pré-adolescência e na adolescência não existia mais aquela necessidade absurda de festa, bastava mesmo ser lembrado por alguém mais que não fosse meus pais e minha tia coruja, eu anotava num papel e até hoje anoto quem me ligou, acho de extrema importância saber quem se importa realmente com você. Na escola sempre fui convencido para participar de vaquinhas com o intuíto de comprar um bolo para o aniversariante de abril, maio, junho, agosto, setembro... Achava e acho até hoje super errado, quem faz aniversário em período de aula ótimo, quem não faz resta pagar a conta literalmente. Mas nem um telefonema  eu recebia de quem comeu bolo com meu dinheiro quando era minha vez de comer um bolo ganho pelos outros. Me sentia iludido e usurpado! E se eu não participasse desses congresso eu era taxado como anti-social ou era prevísivel imaginar que eu tinha algo contra o aniversariante, o que não é verdade, isso só bate contra com meus princípios.

Para mim os meus 18 anos seria um passo para a liberdade, sempre quis comemorar numa danceteria, mas quem iria sair a noite comigo um dia antes da virada do ano? Tirei de mente essa idéia. Meus 18 anos então seria comemorado com minhas duas melhores amigas em casa, nada parecido com meus planos infantis, mas acho que ficaria feliz rindo à toa, escondendo minha tristeza eterna do dia 30/12. Meu décimo oitavo aniversário não foi comemorado, novamente por falta da presença de convidados, eu tinha preparado tudo que cada uma das duas convidadas mais gostavam, ficou tudo pra mim, ou melhor, ficou tudo na minha lembrança. Até pensei em mudar a data do meu aniversário para dia 10 de março, sempre quis fazer anos em Março, um mês estável, sem Natal, dias inexistentes e Ano Novo, tive uma experiência como pisciano e não foi nada favorável, logo malogrei essa idéia e voltei a fazer aniversário em dezembro. Meus 19 anos estão aí, alguém dúvida que essa trajetória cíclica irá mudar? Eu não!

Quem sabe nos meus 80 anos meu sonho colorido de infância não se concretize? Eu teria um sonho realizado e quem sabe meu primeiro aniversário feliz seria no final da vida, uma cruel coincidência.

Eu odeio meu aniversário!
Leando Vitor
Enviado por Leando Vitor em 26/06/2006
Código do texto: T182678
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Sobre o autor
Leando Vitor
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
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