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DIALÉTICA

A CASA DO SOL não mais aparece por entre as montanhas.
A casa do sol é feita de. Sol. Só. O corpo anestesiado estendido no sofá da sala, já não sente dor. Nem alegria. Nem prazer, talvez. Cada uma das sensações tem entre si uma relação dialética, possível, palpável. O coração não mais dispara fácil, tátil. O coração não cabe na cabeça e vice-versa como num poema de Haroldo de Campos. Os olhos ainda se acostumam com a falta de luz. Ou a proximidade de algo. Quanto mais próximo do olhar, tanto mais difícil de se ver. Se ouvir. Se perceber.
A verdade nem sempre vem à tona: prenda o ar, nós vamos subir.
Subindo o tom, uma oitava acima, o suave furor do silêncio se faz notar. Suba o tom quando lhe dirigirem o silêncio opressor das palavras não ditas, ou proferidas pela metade, o silêncio repressor das costas voltadas, em desdém.
A casa do sol está para o céu como o céu está para o mar numa noite de lua. Um céu em auto-relevo. A casa do sol, oculta pelas sombras e pelo frio do final de tarde já não oculta os versos que tanto anseia. O que um dia foi poesia hoje é respeito. E deferência.
Quantas Hildas, Cecílias, Lígias, Coralinas serão preciso para aplacar nossa inquietude?
Somos passageiros de uma composição férrea que risca o pó e a precisão das montanhas mais verdes, com cumes mais altos, ar mais rarefeito. Estamos sempre à cata da paisagem perfeita, da composição harmoniosa, da pintura equilibrada, do espetáculo apolíneo, da poesia arrebatadora.
Solilóquio: metade de mim contempla a solidão como uma queda necessária, que autocompleta o que falta, a outra metade admira sozinha a possibilidade da felicidade que se avizinha, como se fosse um desvio de rota à distancia segura dos olhos.
Caminharemos pelas noites com passos confortáveis de pelúcia (como a dez centímetros do solo numa fuga alucinada rumo a uma jornada interior). Palavra é o que eu não sei.
A casa do sol parece atravessar os tempos imemoriais, parece nos observar onipotente, onipresente. Parece ser. O que é.
Contemplo a sordidez dos que plantam tempestades com tapas nas costas e palavras de alento. Ouço atento o que os olhos tem pra dizer.
Todo conhecimento traz dor e toda dor vem do medo de sentir dor.
Quando a dor for inevitável, experimente a dialética. Ela sempre funciona. E não tem contra-indicação.


[WALLACE PUOSSO, setembro 2004]


DEZ CHAMAMENTOS AO AMIGO - Hilda Hilst
"Se te pareço nocturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento. "

[Dez Chamamentos ao Amigo - Hilda Hilst -(Poesia: 1959-1979 )]
Wallace Puosso
Enviado por Wallace Puosso em 26/06/2006
Reeditado em 13/04/2009
Código do texto: T182810

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Sobre o autor
Wallace Puosso
São José dos Campos - São Paulo - Brasil
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Wallace Puosso