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O HOMEM MAIS FELIZ DO MUNDO.

Há muito tempo atrás, na antiga mesopotâmia, um homem sentado à beira do rio Eufrates pensava. Esse homem mirava a imagem de seu rosto desenhado pela mão de Deus na água e assim pensava. Estava entristecido e carente, tentando achar a razão da sua existência. Talvez o vento com sua música e delicadeza pudesse lhe dizer em palavras sopradas, talvez a luz fúlgida do sol pudesse ofuscar seus olhos e assim enxergar algo mais do que a água, e os pássaros, e as árvores, e os insetos. Toda a sua vida tinha sido um homem bom e honesto. Várias vezes havia sido tentado pela mão do mal, mas sua consciência nunca lhe faltara. E entre ventos, e pássaros, e insetos, e água, e tristeza ele ali ficou sentado, durante vinte e cinco anos pensando. Quando tinha sede bebia água do rio, quando tinha fome pescava e apanhava algumas frutas que por ali mesmo nasciam e eram derrubadas pelos pássaros. Estava disposto a ficar ponderando pelo resto de sua existência e talvez morrer de tanto pensar.
Um dia, quando chovia torrentes e o vento soprava forte em sua roupa molhada, já apodrecida pelo tempo que passara como uma planta enraizada e condenada a existir para servir de comida para os insetos, ou quem sabe ser ingerida pelos vermes da terra, algo brilhante apareceu em sua frente. Sabia que não era a luz do sol, pois esta, já a conhecia como ninguém. Sabia como era na manhã, tarde e noite. Era como uma fotografia em sua mente. Então o que seria aquilo que parecia ter prazer em ferir seus olhos? Paulatinamente a luz foi diminuindo a sua intensidade, a chuva cessou e em um momento seu rosto molhado foi a única coisa que sobrou daquelas horas passadas que pareciam como facas adentrando seu corpo.
Uma imagem foi se compondo em sua frente como uma bola de luz, que agora menos intensa, posava para aquele homem de aparência assustadora cuja barba já lhe cobria o queixo, o cabelo ainda guardava pedaços de folhas que caíram no inverno. Assustado e imóvel com aquela imagem, teve vontade de correr, mas o tempo que passara ali o tinha imobilizado parcialmente seus membros, tentou, mas não conseguiu fugir.
O que fazes aqui demônio?Vieres buscar-me? Se for esta tua missão, leva-me agora para qualquer lugar! Não agüento mais essa vida! Tudo fiz para ser um bom homem, fui um bom pai e um bom esposo, trabalhei como camponês toda a minha existência e meus filhos foram criados com saúde... Não tenho medo de ti! Se vais levar-me, que o faças agora!
E então a luz foi mudando e rapidamente tomou-se a forma de uma mulher linda, com cabelos que desciam pelas costas como água da chuva pela vertente, olhos que pareciam arrancar a imagem de toda aquela paisagem como se fossem os donos da natureza, era como se a natureza a conhecesse e talvez a amasse já de longa data. Sua beleza produzia lágrimas nos olhos daquele homem.
Por que me tratas assim, pobre homem? Sou testemunha de sua vida! Lembro-me do dia que sentastes aqui nessa pedra e desse dia em diante fui ouvidora de suas palavras, mesmo aquelas que não pronunciaste em tua boca. Eu era o pássaro que cantava ao teu lado de manhã quando acordavas, eu era a água desse rio que muitas vezes bebestes para saciar tua sede, era o vento que soprava em teu rosto e minhas lufadas beijavam tua carne, era a folha que caía em teu cabelo e assim acariciava teu semblante. Não me chames de demônio! Para ti, fui tudo de bom. Lembras quando perguntaste para mim onde que eu estava? Pois então, vê agora? Estava contigo a toda hora que pensavas, e que choravas, e que suplicavas para ser contemplado com a morte. Fui seu dia e sua noite. Brilhei para ti quando despertavas. Enquanto dormia eu contava tua respiração e ordenava a teu coração qual seria o ritmo para bater em teu peito. Não permiti que os seres microscópicos adentrassem pela tua narina e causassem a tua morte. Por tudo isso, não me ofenda! Tuas palavras para contigo mesmo são frias e ásperas. Tu apunhalas a ti mesmo com teus pensamentos e tudo fiz para mostrar-te minha generosidade. Quando nasceste, pus em tua carne milhões de gânglios, trilhões de terminações nervosas e tu me acusas de fazer isso para sentires dor, enquanto minha vontade era que sentistes prazer! Pus dois, e não um olho em tua face, para que vejas toda maravilha que criei e tu disseste que se recusaria a ver. Podes andar, não pode? Podes falar, não pode? Que outro ser vivo que criei na terra tem o dom de sorrir se não tu? A ovelha que tens em seu pasto sorri? Tuas galinhas dão gargalhadas quando discorrem entre si? Não, não fui generoso com elas como fui contigo. Lembras quando tirei tuas proles do útero de tua mulher? Por acaso me agradeceste por isso? Eu pus ar em teus pulmões, pus sangue em tuas veias, pus vida em teu corpo! Não seria eu a lamentar por dar-te todas as bênçãos da terra e não ter nem um obrigado de ti? Ouvi teus pensamentos, mas não pus palavras em tua boca. Fiz-te locomover-se, mas não decidi qual caminho tomar. Tens tudo a tua vontade e sente-se preso. Estás sim preso, mas no cárcere de tua ignorância. Estás cego, pelo teu próprio tracoma. Estás aleijado, pela tua própria gangrena. Não me culpe pela tua infelicidade, pois te fiz com meu amor. Por amor aqui está tua existência. Vistes na tua imagem no rio quão bela é tua aparência? Fui teu tudo e continuarei sendo até o fim de teus dias. Se quiseres me desapontar, se quiseres me fazer chorar, que então faça, pois, minha generosidade também te deu o poder da escolha. Esta imagem que esta vendo agora vai sumir, mas minha presença ainda estará contigo. Apesar do que fizeste comigo eu ainda te amo, pois como não poderia amar meu próprio filho. Faça teu destino homem! Não sou eu que escolho por ti, mas estarei em cada uma de suas decisões. Lembre-se de que podes me ver mesmo quando teus olhos fecharem, e lembre-se de que estarei te vendo por todos os lados, até mesmo na sola das tuas sandálias, pois te observo através dos olhos dos germes.
Então aquela imagem foi sumindo como uma rosa transparente que em vez de desabrochar, volta-se para dentro até sumir completamente engolida pela própria garganta.
O homem então percebeu que o vento voltou a soprar e os pássaros cantavam como se tivessem tido a visita de um velho amigo que não se vê há muito tempo. Em seus pés descalços e encardidos via a sujeira que tomou seu corpo. O vento trazia consigo o odor das camadas de pele que aquele homem deixou que se acumulassem durante os anos.
Não sabia o que pensar. Chorou durante algum tempo e decidiu adentrar naquele rio de águas límpidas e cristalinas. Lavou seu corpo e o secou ao sol. Lavou sua roupa e a secou ao vento. Decidiu então voltar pra casa. Estava um dia claro, daqueles que quase não se vê nuvens no céu. Parecia primavera, pois o clima estava agradável e a brisa que saía das árvores refrescavam sua pele. Enquanto caminhava, suas pernas foram ficando mais ágeis e o prazer de sentir seus músculos novamente em plena atividade, deu-lhe uma alegria única. Sentiu-se um tolo por um momento, mas aquela sensação era tamanha prazerosa que seus pensamentos voavam, e não conseguia concentrar-se em uma só idéia. Pensava em várias coisas ao mesmo tempo. Lembrou-se de quando era criança e fazia o mesmo que estava fazendo ali, naquele momento, correndo pelos campos numa disputa de velocidade com o vento, um ótimo desafiante. Não conseguia mais lembrar o porquê que perdera a fé nem o momento em que caiu em melancolia. Tentava justificar seus atos passados e não conseguia achar razão para a maioria deles. Quando se deu conta estava em casa, mas não conseguia entender por que estava tudo diferente de quando saiu. Os campos estavam em plena fartura, a plantação de trigo desaparecia no horizonte. Do outro lado os animais pastavam, parecendo que trocando confidências e comentando: olha, finalmente ele voltou, olhem lá todos!
Quando saíra, deixara somente a esposa e sete filhos ainda pequenos, mas quando voltou viu que seus filhos tiveram esposas, e suas noras tiveram filhos e filhas. Fitou mais um pouco aquela imagem, e de repente caiu de joelhos sobre a grama fina e pôs-se a chorar em prantos. Seus filhos o reconheceram e correram em sua direção. Infelizmente sua esposa já havia falecido, mas deixou em sua herança filhos saudáveis e felizes.Tomaram conta de suas terras e as fizeram produzir como nunca. Diziam eles que até empregados eram contratados em época de colheita, centenas deles. Diziam que sua mãe falecera logo depois que ele havia partido, que ela chamava seu nome e jurava que não amaria nenhum outro homem em sua vida, preferia morrer a isso. Contavam das noites em que o pai carinhoso e amado fazia extrema falta para eles e fizeram o homem prometer que jamais partiria novamente.
Esse homem viveu até seus noventa e oito anos. Seus dias depois da sua chegada eram de felicidade. Como velho parecia uma criança, brincava com seus netos e bisnetos e ajoelhava-se quando falava com eles num ritual que parecia querer dizer que apesar da idade que tinha, era nada mais que igual pessoa.
Viveu noventa e oito anos e morreu enquanto dormia.
Dizem que sua geração vive até hoje em toda parte no mundo e sua alma habita em cada um deles fazendo lembrar daquela mulher que um dia disse ao mundo a nossa missão: Viemos para essa vida para sermos felizes e nada mais... Nada mais.

Gilmar Takano
Enviado por Gilmar Takano em 28/06/2006
Código do texto: T183514
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Sobre o autor
Gilmar Takano
Londrina - Paraná - Brasil, 40 anos
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