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Púrpuras Melancólicas

Nome bonito! Não é? Até parece frase de um poema: "A melancolia em riso disfarçada" ou nome de filme: "A cor púrpura do Cairo", mas a minha colega médica sabe bem o que significa, mesmo sem ouvir o meu relato que segue:
Tenho uma filha que sofre de fibromialgia e certo dia ela foi ao reumatologista , como faz rotineiramente, e durante a consulta falou de umas manchas escuras que lhe aparecem no corpo (pernas e braços) sem saber como. 0 médico então explicou que são manchas denominadas "Púrpuras Melancólicas", proveniente da erupção espontânea hemorrágicas em face do estado emocional da pessoa. Com o agravamento da fibromialgia, ficou claro que ela estava estressada emocionalmente, daí o aparecimento das tais manchas.
Interessante como a mente da gente guarda lembranças antigas, que de repente vem à tona à simples menção de uma palavra. No meu caso foi "Melancólica" (de melancolia).
Lembro que era criança, com dez ou onze anos, quando perguntei a minha tia, bem velhinha na época, porque ela usava um anel de metal, que não era ouro, se era lembrança de alguém? Ela me respondeu que não era lembrança, usava-o para se livrar de "Maliconia": manchas escuras que apareciam pelo corpo e que se atingissem o coração causariam a morte. Por esta razão ela nunca o tirava do dedo. Curiosa perguntei ao meu pai o que era "Maliconia" e ele disse que não sabia, não encontrara no dicionário e que devia ser invenção da minha tia.
Para me fazer ver como eram perigosas as tais manchas, minha tia contou-me a seguinte história:
Na cidade morava há muitos anos, um casal cujo o marido, apesar de ser rico, era um desses homens ignorantes, desconfiados de tudo e de todos. Certa vez notou umas manchas escuras nos braços e no colo da esposa e logo a maldade subiu-lhe à cabeça e passou a interrogar ferozmente a mulher, insistindo que dissesse o nome do homem com quem o estava traindo. Não obstante afirmação dela que as manchas apareciam misteriosamente, pois ela não saia de casa sem ele e também não havia caído, nem se machucado batendo em alguma coisa. Não acreditou e a idéia da traição continuava a lhe perturbar cada vez mais e assim concluiu: se ninguém ia à sua casa sem sua permissão e se a esposa também não saia sem ele, só restava o vigário, confessor da família há quase uma década. Pensando desse modo, expulsou a esposa de casa e deu um tiro no  padre, que conseguiu sobreviver e a mulher foi embora e não sabia para onde, até que alguém apareceu dizendo que ela havia morrido de repente com uma mancha enorme no peito.
História triste! não é? Agora depois de tanto tempo achei a explicação para a palavra "Maliconia" que nada mais é do que um erro na pronuncia e na grafia da "Melancolia", pois minha velha tia era quase analfabeta.
Lucilia Cavalcanti
Enviado por Lucilia Cavalcanti em 28/09/2009
Reeditado em 29/09/2009
Código do texto: T1836373

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Sobre a autora
Lucilia Cavalcanti
São Paulo - São Paulo - Brasil, 80 anos
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