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Despedida

Na verdade, era muito agradável sentir o calor latejar sob as maçãs do meu rosto após tanto tempo andando por aquelas ruas tão frias.

E como eram frias!

Não que o frio de todo me desagradasse - não é isso que quero dizer. Era só cair um pouco a temperatura para as coisas ficarem diferentes. As pessoas passam a se aconchegar umas às outras como gatos manhosos e, por algum motivo, as casas passam a cheirar a doce.    Imagine só estar em uma casa, o aroma do bolo no forno preenchendo todos os cômodos, a lareira acesa, e você sobre almofadas macias, por longas horas, ouvindo o estalar do fogo e lendo um bom livro. Uma personagem de um livro - é isso. É isso que eu me sentiria naquele cenário - e que possibilidade sedutora!

Já para os pedestres, porém, o frio se mostra despido de todo esse idílio e passa a ser nada mais do que cruel. Há pouco, eu era só mais uma entre aqueles a caminhar nas calçadas com as mãos enterradas nos bolsos, o vento incômodo lambendo o rosto indefeso e o nariz mais e mais vermelho a cada passo. Que fortuna a minha encontrar um estabelecimento como aquele - aconchegante, quente e acolhedor - aberto no momento que eu mais precisava. Encaro como desnecessário dizer que lá entrei com verdadeira urgência.

Minha chegada foi anunciada pelo soar estridente do sino que ficava sobre a porta e logo um bafo quente inundou todo meu corpo. Não pude sentir mais nada, só alívio.

Um garçon muito solícito me encaminhou a uma mesa e, para falar a verdade, quase senti pena dele. Acontece que, por alguma razão, ele piscava os olhos numa freqüência incomum e eu simplesmente não pude deixar de reparar. Sei que ele se constrangeu com a minha estranheza. Mudei meu foco de visão o mais rápido que pude e fui mirar justamente suas mãos muito magras, e ainda bonitas, que puxavam gentilmente uma cadeira para mim. Vi naquele gesto a minha benção e o perdão pela minha indiscrição de antes e fui tão grata a ele por desconsiderar minha falha.

Pedi logo um café, o maior que ele pudesse me oferecer. Acho que fui bastante clara nessa última observação, pois, quando ele finalmente trouxe o café à minha mesa, não havia nada mais na bandeja que carregava com os dois braços, e a tal xícara veio apoiada sobre um pratinho de sobremesa, uma vez que o píres talvez não desse conta. Deixei jorrar cachoeiras de adoçante naquele rio tão escuro. Gostava mesmo era de um bom café melado de doce e simplesmente não entendia as pessoas que tomavam café puro! E o gosto pelas melhores coisas na vida?

Tirei um livro muito pesado da minha bolsa. Era aquele tipo de livro que não se lê pelo prazer em si - no meu caso, eu lia porque no futuro eu me acharia bastante teatral dizendo que o havia lido e nada é igual a se sentir parte de uma exuberante produção. Claro, havia preços a serem pagos - por exemplo, ler cada linha daquele livro era para mim um sacríficio e arrancar qualquer significado daquelas palavras compridas se tornava mais e mais difícil. Minha falta de interesse na história possibilitava contínuas distrações. Observei incansavelmente os tipos ao meu redor. Homens de crespos bigodes, mulheres com penteados extravagantes, cachorros sonolentos e certas crianças tão barulhentas a ponto de me fazer desejar ter ali comigo um guarda-chuva, para meter-lhes na cabeça. Mas o que mais me interessou veio de fora. Pelo vidro embaçado das janelas, o contorno de um homem prendia meu olhar como nenhuma outra coisa parecia ser capaz.

Ele estava sentado na calçada, voltado para a rua. Do ângulo que eu estava, era impossível ver seu rosto, mas eu imaginei que não se tratasse de um tipo muito bonito. Seu cabelo, ao contrário, era fascinante. Não devia pentear a meses, mas aquela bagunça toda o tornava ainda mais interessante. O desapego, o despojamento. A desordem e também o caos. Sempre o caos, brincando de ciranda ao seu redor.

Digo isso porque dezenas de pessoas caminhavam às suas costas e ele nem ligava - nem para elas e nem para a poeira que os seus passos levantavam. Muito menos se importava com os carros que passavam a altas velocidades à sua frente ou com o copinho de isopor, que jazia ao seu lado, cheio até a borda. De tempos em tempos, bebericava do café e nem parecia notar que, àquela altura, ele já havia esfriado. Ele era tão alheio a tudo, tão indiferente. Se eu pudesse vê-lo de frente, estariam seus olhos fixos em algum ponto? Ou eles simplesmente ultrapassariam o horizonte sem reparar em uma só coisa, uma vez que nada tinha importância?

Eu até considerei me levantar, sair pela porta, colocar a mão sobre o ombro daquele homem e dizer o quanto eu o amava, só por ele estar ali, parado. Ou simplesmente desejar a ele que ele tivesse um fim de noite estupidamente bom. Parece tolo, eu sei - foi por isso que eu permaneci sentada.

Imaginei que ele se levantaria em pouco tempo - afinal, quanto uma pessoa aguenta ficar sentada numa rua tão fria e sem nada absolutamente a fazer? Mas não. Ele ficou ali, por um momento infinito, enquanto eu o observava em segredo. Eu o acompanhei, acompanhei cada segundo da sua melancolia. E aquilo levou horas.

Na verdade, já era noite quando ele finalmente se levantou. Uma última olhada na rua e caminhou para fora do meu campo de visão, sem nunca virar para trás.

Eu quase pude ouvir o apito de um trem ao longe, dizendo adeus àquela cidade de névoas. Sim, o apito de um trem seria a trilha sonora perfeita para aquele momento.
Julia Cardoso
Enviado por Julia Cardoso em 29/06/2006
Reeditado em 29/06/2006
Código do texto: T184720
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Sobre a autora
Julia Cardoso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
6 textos (337 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 10:27)