Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Falando com estranhos

Alice nunca fora o tipo de menina que se apaixona facilmente - bem, pelo menos, não de verdade. Ela vivia encantada, a cada hora por um diferente, mas na sua vida nada chegava para ficar e, cedo ou tarde, tudo partia. Era assim também como as pessoas - elas vinham e depois, sem aviso ou longas despedidas, iam embora. Deixavam para trás poucas coisas - roupas impregnadas com seu perfume e talvez algumas lembranças doídas e bilhetes.

Apesar disso, Alice não parecia se importar. Pessoas no geral a deixavam cansada, com suas conversas vazias e algumas manias irritantes.

Naquela manhã gelada de sábado, saíra bem cedinho para caminhar no parque - era tão agradável àquela hora do dia, quando as pessoas, apesar de próximas umas das outras, poucas palavras trocavam, aproveitando tudo que pode haver de sereno e doce no silêncio. Talvez o canto dos passarinhos ao longe - tão valorizado em uma cidade caótica como aquela - mas nada mais, só o sol se erguendo sobre aquele horizonte quebrado pelos prédios e o céu pintado da mais interessante gama de cores.

Sentada em um banco de madeira, Alice admirava tudo nos seus detalhes - era tão belo! Não podia evitar mas sorrir, um daqueles sorrisos que são raros nessa fase da vida quando se é jovem demais para compreender que se inconformar e causar tensão por tolices é um desperdício de tempo e também de fôlego. Às vezes, não tem nada mais gratificante do que encontrar beleza no que parece tão errado - é preciso ter vivido um certo tempo para perceber isso.

De qualquer jeito, lá estava Alice, uma menina qualquer, sentada sobre um banco de madeira, não exatamente confortável, mas que servia no momento, quando passou um menino - um rapaz, na verdade -, não um  rapaz especial, só um menino qualquer, desse tipo irresponsável, que anda por aí com os cadarços de seu all star desamarrados e idéias revolucionárias - e, digamos, impraticáveis - na cabeça. Usava uma boina xadrez, que fazia sombra sobre seus olhos, e o modo com que caminhava não era nem um pouco lisonjeiro. Acontece que há alguma coisa em ser jovem e estúpido que prende os olhos da gente, ah, tem sim.

E com os olhos de Alice não foi diferente. Eles o seguiram por todo o caminho, foram massageados pela visão daquele cabelo amassado pela boina e pelo travesseiro, eles pareciam gritar para que aquele rapaz não fosse embora para muito longe, para onde eles não pudessem mais alcança-lo. Mesmo assim, ele foi. Foi, como todos os outros iam.

E lá estava ela, sozinha de novo. Com o silêncio, mas agora um silêncio diferente. Não mais aquele silêncio aconchegante, que a abraçava e a fazia sentir simplesmente bem - não. Aquele novo silêncio trazia somente ausência - ausência de sons, mas não só: ausência também de todo o resto, como companhia e sonhos. Aquele novo silêncio denunciava apenas o quanto Alice era sozinha.

Ela sentia como se nunca mais na sua vida ela fosse capaz de se mover, porque a solidão a esmagava por todos os lados, por todas as extremidades de seu corpo. E, de repente, como se o sol desistisse de subir e voltasse a se esconder por debaixo da Terra, ela estava triste.

Ao seu redor, as árvores já não pareciam tão bonitas nem os frutos tão saborosos. O canto dos pássaros passou de uma melodia suave e doce para uma cacofonia: só ruídos, só tristeza.

Foi quando assim, sem explicação ou motivo, alguém sentou ao seu lado, com todos os outros bancos do parque vazios. E, então, uma voz rouca e sem ânimo formulou uma das mais simples e amigáveis palavras que existem:

"Olá".

Alice, como que se saindo de um transe, virou para o lado e finalmente percebeu que já não estava mais sozinha, não importava por quanto tempo. Sob a aba de uma boina xadrez, dois olhos bem castanhos a encaravam sem interesse. E como eram castanhos!

"Oi", respondeu ela, um pouco insegura, começando a assimilar que o rapaz, aquele rapaz qualquer de antes, estava realmente a seu lado.

E ele ficou quieto. Ela não estava bem certa se tinha falado muito baixo e, então, devia repetir. Por via das dúvidas, calou-se, como ele.

Apesar do silêncio incômodo, os dois continuavam a se olhar. Ele, como se a examinasse e procurasse entender de onde vinha tanta tristeza estampada nos olhos dela. E ela olhava para ele, tentando apreender cada uma das suas feições ou quem sabe procurando memorizar o jeito que a barba mal-feita se espalhava pelo seu rosto.

"Ah, vai, pára com isso", ele finalmente disse, desviando o olhar. Acendeu um cigarro, colocou-o entre os dentes amarelados e tragou com força.

"Desculpe", disse ela, enquanto observava a fumaça do cigarro desvanecer lentamente ao redor dele.

"Você fuma?", ele perguntou, insinuando o maço de cigarro para ela.

"Não, obrigada".

E de novo o silêncio incômodo. Ela não podia deixar aquilo acontecer de novo.

"Então... você vem sempre aqui?", ela disse, finalmente, um pouco sem graça, mas tentando descontrair um pouco.

Ele jogou a cabeça pra trás e deu uma gargalhada deliciosa de se ouvir.

"Isso é o melhor que você consegue fazer?", perguntou.

"Bom, pra falar a verdade, é sim".

"Então, acho que eu devia ter escolhido outro lugar pra sentar" e olhou para ela como se esperasse que ela fosse pedir para que ele não fosse embora - mas ela não pediu.

Alice olhou para baixo e se envergonhou das suas unhas roídas. Era uma mania que ela tinha desde criança e já tinha feito de tudo para se "curar" dela, mas nada adiantava. E assim, com a cabeça baixa, seu semblante era o de alguém incrivelmente infeliz.

"Vai, não fica assim", disse ele, talvez se sentindo um pouco culpado. "Me diz, o que te atormenta, menininha?"

E dizer isso foi tão doce da parte dele que ela sentiu como se pudesse chorar, ali mesmo, como uma criança que se perdeu dos pais.

"Nada... nada mesmo", respondeu.

"Vai, pode me falar. Eu sou só um estranho. O que você tem a perder?", ele insistiu. "Daqui a alguns minutos, a gente vai se separar e nunca mais se encontrar. E mesmo que a gente se cruze na rua, um não vai reconhecer o outro, porque o que importa agora não é quem somos, não é nosso nome - tudo o que importa é que nos encontramos e que você não me conhece e eu acho que eu posso te ajudar".

Ela nada respondeu. Secretamente, ela pensou consigo mesma que, se cruzasse com ele na rua, ela o reconheceria, mesmo que ele estivesse na outra calçada, simplesmente porque ela já o amava só por ele estar disposto a ajudá-la e não era pouco esse amor, por mais tolo que isso possa parecer.

"Você não quer falar?", continuou ele. Ela balançou a cabeça, em sinal negativo. "Tá certo. Quer andar um pouco então?"

E lá foram eles. Ele era quase dois palmos maior do que ela e isso fazia com que ela se sentisse realmente mal e, toda vez que levantava a cabeça para mirar aquele rosto não mais tão estranho, ela sentia uma espécie de vertigem ou aquela mesma sensação que se tem quando se olha um prédio muito alto.

Ela gostava bastante de ficar lá, só ouvindo a voz dele, e ele deve ter percebido isso, pois parecia procurar falar o máximo possível. E, apesar de, na maioria das vezes, não obter muita resposta, ele não se sentia de todo entediado.

Falava algumas coisas bobas, é certo, mas essas faziam com que Alice risse, uma risada suficientemente genuína. Ele olhava para ela e ria também e depois suspirava e, então, os dois continuavam a andar. E, de repente, tão de repente quanto ela tinha ficado triste há pouco, ela passou a se sentir estupidamente feliz. O aroma da pipoca amanteigada fez com que ela fechasse os olhos e sorrisse. Era delicioso.

Chegaram, enfim, ao portão do parque. Pararam os dois, um de frente para o outro, se olhando nos olhos, mais uma vez. A última vez.

"Bom, então eu acho que é isso, né", disse ele.

"É, acho que sim. Sabe, eu não quero perguntar o seu nome".

"Então não pergunta".

Ela mirou só mais um pouco aqueles olhos castanhos, a boina xadrez e a barba mal-feita.

"Adeus, estranho"

Depois, um suspiro, e mais nada.

Deu às costas e foi embora. Conforme subia a rua, se perdia no aglomerado de pessoas que, àquela hora, já preenchiam a calçada. Durante todo o caminho, não se virou nem uma só vez para ver, atrás de si, o all star surrado levando o rapaz para a direção contrária a dela, para longe e longe dela.
Julia Cardoso
Enviado por Julia Cardoso em 01/07/2006
Reeditado em 01/07/2006
Código do texto: T185398
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Julia Cardoso
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
6 textos (337 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 02/12/16 22:41)