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MEDITAÇÃO CURTA SOBRE O FOGO

                 Há coisas que a gente deve fazer muito raramente. Há coisas que merecem ser feitas apenas uma vez na vida. São únicas como nascimento e morte, como um vaso de cerâmica com antena de formiga na textura. Mesmo que todos os argumentos o justifiquem, mesmo extravasando o barril da tolerância, atear fogo ao próprio corpo não pode ser feito todo dia como se escova os dentes e se usa desodorante.
        Por causa desta rareza de carbonizar o próprio corpo, essa agricultora, cujo cadáver tostado a família levou do hospital nesta tarde, não me deixa as idéias. São coisas muito peculiares como uma vaca no apartamento ou criação de baleias em fontes japonesas. É preciso um garrafão inteiro de vinho colonial para levar coisas assim à realidade. E vinho colonial anda misturado com muita água ultimamente.
        Quem ateia fogo ao próprio corpo ou tem razões demais ou tem razão de menos. Autocombustão voluntária está entre os extremos do nascimento e morte e entre os extremos da razoabilidade, ou nos extremos cardiológicos.
                 O incêndio ao próprio corpo deve ter causa em um coração crescendo descontroladamente para dentro. Não falo da miocardiopatia hipertrófica que, conforme um médico, “é uma doença genética hereditária e muscular do coração, que cresce para dentro e forma uma "banana shape". Isso causa arritmia (descompasso do coração) e pode levar à morte”. Não tenho dúvidas de que o incendiário de si mesmo sofra de um descompasso do coração. Mas tenho certeza de que seu coração jamais formaria uma “banana shape” para dentro.
         Razões de mais poderia ser um nojo com a vida ou com o mundo. O monte de anotações feitas durante anos – essa senhora tinha 52 –uma lista enorme de compras para quem tem pouco dinheiro. As anotações da vida não seriam coisas a serem compradas, mas coisas a serem solucionadas, resolvidas ou dissolvidas. Uma lesma gigante sobre a qual a gente despeja caminhões de sal. Chega um momento que as anotações ocupam tanto papel, a lesma está cada vez mais gigante no jardim e nos contam não haver mais sal em lugar nenhum do mundo. Então, compramos uns dez galões de gasolina, jogamos no jardim e molhamos a casa. Ateamos fogo em tudo e ficamos tranqüilamente sentados na sala esperando a total consumação da lesma e da casa.
           Razão de menos só pode ser enfermidade do cérebro. Uma dessas insanidades que a ciência - com seu milhão de teoremas – declara crônica. A senhora decerto perdeu a razão quando foi tirar o leite das vacas de manhã e, sem mais nem menos, achou que a gasolina era apenas uma água com manjericão para tirar o cheiro de esterco do corpo.
          Mesmo se for por excesso de razão ou por falta, de minha parte, acho tudo simples e transparente. Coisa semelhante à água daquela fonte entre as bananeiras onde a senhora em combustão mergulhava a caneca depois de horas e horas capinando o milharal. Nascer e morrer, incendiar e apagar, razão de muito ou razão de pouco, nada mais importa quando a gente escuta o raro clamando para ser feito. Como um chimarrão implora feitura no chiar da chaleira.
          Arder de amor. Queimar de angústia. Riscar um fósforo no cérebro. Na inspiração do inverno iniciado, farei uma fogueira junina com tantas perguntas sem respostas. Dançarei ao redor uma dança da chuva para refrescar minhas esperanças. Prometo ficar longe das faíscas. Ser escritor me permite, pelas metáforas, agüentar a existência. Posso, a qualquer hora, brincar com o fogo. Faço, sem nenhum risco ou dano, aquilo que - se eu vivesse apenas de realidade - nunca encontraria explicações em sendo feito.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 01/07/2006
Reeditado em 01/07/2006
Código do texto: T185710
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5113 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 20:44)