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TERAPIA DE BUZÚ

TERAPIA DE BUZÚ
OU
HISTÓRIAS DE UMA TERAPEUTA  INTINERANTE
Bahia,   19/6/98 – 6:45h

        Decididamente, aquele homem acordara com o pé esquerdo. Aliás eu acho que ele saiu de casa completamente de mal com o mundo; se não, como explicar um comportamento tão inusitado?

Cenário: um ônibus com destino à Calçada, via Itaigara.

Era sexta-feira – dia da minha terapia. Eu, invariavelmente desperto de bem com Deus e comigo. Já desço a ladeira cumprimentando conhecidos e estranhos – Bom dia – bom dia!

Peguei o ônibus. De tão cheio, tive vontade de ficar ali mesmo na entrada, pagar e saltar pelos fundos, só para não enfrentar aquele corredor no qual não passava nem pensamento. Só que na próxima parada, subiram mais pessoas. Não tive jeito, passei o torniquete, não sem antes cumprimentar o cobrador, e segui, ou melhor empaquei nas costas de um cidadão um pouco mais alto do que eu, meio gordinho, uns 60 anos, imagino. Quando eu disse empaquei, cristalizei exatamente o que me aconteceu. Eu poderia ter avançado um pouco mais à frente; acontece que meu Anjo da Guarda e o dele, estavam conspirando...
Fiquei nas costas do homem numa posição de abraço, quando o nosso diálogo teve início:

- Quando é o home que incosta elas fica cum raiva e recrama.

Sem mover um músculo, eu retruquei:

- O Sr. vai me desculpar, mas o ônibus está cheio, tenha paciência!

Paciência era algo que ele não conhecia... e continuei:

- Aproveita que não está fazendo nada, e passa uma energia boa para mim, que farei o mesmo pelo senhor.
Nesse momento ele olhou para trás e retrucou:

- A sinhora num é minha mulé!

Nem sei o que ele imaginou ser essa tal de energia, e eu lhe devolvi bem humorada:

-  Deus me livre! Zangado assim desde cedo, não ia servir pra ser meu marido!

A essa altura, as pessoas ao redor já estavam rindo, descontraídas.
E ele, não perdia a pose. Como eu não desgrudava do sujeito, daí a mais uns dois pontos ele falou:

-  Dá pra sra. me dá licença, qui eu vou sartá?

E eu, confiada não sei em quem, ainda provoquei:

-  É, eu acho que o Sr. estava mesmo precisando de um abraço de manhã cedinho...

-  Intão, agora vai abraçar outro...

Devolvi:
-  Não precisa, a minha boa ação do dia eu já fiz. Deus te acompanhe.

O homem desceu, e ainda me passou um olhar incrédulo quando o ônibus se afastou.
Tenho certeza que esse episódio deu-lhe o que pensar, durante todo o dia. Ainda ficaram alguns comentários das outras pessoas, que aqui não cabe relatar. Só sei que o meu coração ficou leve, em ter contribuído para adoçar um pouquinho, tanta amargura!

verasdemim
Enviado por verasdemim em 07/07/2006
Código do texto: T189348
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Sobre a autora
verasdemim
Salvador - Bahia - Brasil, 67 anos
1 textos (16 leituras)
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