Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

" O meu primeiro escândalo sexual "
Evaldo da Veiga



Lairzinha já estava com seis anos, 
completados no domingo último.
E eu ainda tinha que esperar um mês, 
somente no Natal faria seis anos e ficaria igual à Lairzinha. 
Às vezes, quando eu rezava, nunca deixava de pedir a Deus pra que eu e Lairzinha tivéssemos sempre a mesma idade.
Pra toda vida...
Lairzinha estava com uma janelinha na boca 
que a deixava ainda mais linda...
Foram os dois dentinhos que perdera em seu incidente de ciúme.
Também, quem mandou ser brigona?
E no dia, o sangue saindo da boca, ela disse pra mim repetidas vezes:
- tá vendo, isso é pra você ver!
Eu me sentia culpado, mas acho que já era tempo de Lairzinha 
esquecer aquilo tudo e me chamar pra chupar "Bacuíca" no pé.
 O Pé de Bacuíca era alto e frondoso.O Caule nasceu dividido
 em três e assim era mole pra Lairzinha subir.
Ela me lembrava uma gatinha quando subia na árvore: 
era rápida e arisca.
Ficávamos bem lá em cima entre as copas da árvore
e namorávamos sem quem estivesse lá embaixo 
pudesse perceber. Estava sentindo muito a falta do convite.
Ela me chamava pra chupar Bacuíca mesmo 
fora do período, quando não havia uma Bacuíca se quer. 
E eram os melhores períodos, porque na temporada o Pé fica abarrotado de meninos, uma zoeira total.
Eu também queria ter uma janelinha igualzinha a de Lairzinha
a  às vezes perguntava à minha mãe quando que meus 
dentinhos iam cair e ela respondia secamente: - sei lá! 
Pergunte ao teu pai, não é ele que sabe de tudo.
Eu gostava bem mais do meu pai, porque minha mãe mentia,
 exagerava, e eu não tinha confiança nela. 
Um dia, ela para ser livrar dos barulhos que fazíamos enquanto brincávamos de correr, disse que ia morrer,
 que o médico só lhe dera um mês de vida.
 Me senti culpado, fiquei apreensivo, triste, e ela nunca morreu, 
mas eu custei a descobrir a fraude
- " Não estou me aguentando mais em pé, minha cabeça está estourando,
 estou quase morta "
- Ela era muito exagerada.
Terminado serviço estava na cerca conversando com a vizinha na maior boa e às vezes até assoviando várias canções. Nunca consegui me acostumar com esse jeito da minha mãe.
 Em compensação meu pai era meu grande amigo,
meu ídolo, ele nunca mentiu.
Mas a maré não estava muito boa pra mim. Fui me meter com a filha da Ivete língua de fel e procuramos
 um cantinho para fazer saliência.
 O mais seguro: agente passava deitadinho
 por debaixo dos arranha gatos, um lugar inacessível 
aos adultos e mesmo do alto ninguém via nada.
Estávamos lá inaugurando o nosso convívio amoroso
 quando ouvi os berros da Ivete:
- Cerca, Ceeerrrrca, eles estão lá embaixo. Aquele safado levou 
minha filha pro mato!!!
Ivete tinha a voz muito alta, estridente, horrível. 
Aquela altura o bairro todo já estava de alerta..
Ficamos caladinho, sem movimentos, mas vieram as pedradas.
Se não sair vou jogar um tijolo!! - Berrava ela.
Se meu pai estivesse lá me defenderia mas quem estava era a minha mãe, que pra fazer média dava razão a Ivete.
- Esse menino me mata, já não sei o que fazer....
 - Ah meu Deus, o que que eu fiz para pagar esse pecado.
Esqueci o medo, e me concentrei na fraqueza
 de caráter da minha mãe.
Tudo aquilo ela fazia porque tinha medo da língua
 ferina da Ivete.Um dia peguei-a dizendo pra Dona Maria da esquina: - com a Ivete a gente tem que ter cuidado, 
ela fala mal de todo mundo, pobre coitada de quem cair naquela língua ferina...
Como estava caindo muita pedrinha em nosso telhado de mato,
e também porque naquele clima era difícil namorar, resolvi sair .
Muito chateado, não com a vida, mas com minha mãe
que se rendera a Ivete e não fez o menor esforço pra me salvar,
 me entregou de bandeja.
A chateação durou pouco: ouvi uma voz muito grave , 
meio rouca e autoritária:
- Vocês jogando pedra em crianças? - era o Sargento Victor, Subdelegado, temido e respeitado.
- Saiam crianças, a Policia está aqui para protegê-los!!!
Saiamos bem arranhados, porque quando 
começaram os gritos da Ivete procuramos sair por onde não se sabia onde, e os arranhões aconteceram.
O Sargento Victor segurou o meu braço e examinou
 com um olhar atencioso e investigativo. Olhou as pernas e disse:
- O menino está todo lanhado!!! 
Vá pra casa e passa álcool pra não inflamar.
E a senhora Dona Ivete, na próxima eu te coloco na cadeia.
Tô e olho na Senhora hein...
Tinha um público considerável assistindo ao meu primeiro escândalo sexual. Os adultos, quase cem por cento mulheres,
 não falavam nada com medo da língua da Ivete, 
mas a criançada se deliciou:
- a Ivete vai em cana, a Ivete vai em cana, quem falou foi o 
Sargento Victorrrr
OBAAAAAAA!!!
Foi uma algazarra longa e festiva.

evaldodaveiga@yahoo.com.br
Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 10/07/2006
Reeditado em 25/05/2007
Código do texto: T191075

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
952 textos (313617 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 00:20)
Evaldo da Veiga