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O chiclete sem gosto dos dias de hoje

Eu me lembro que o chiclete de bola, aquele que vinha enrolado em um papel de proteção e trazia também uma figurinha com personagens de cartoon ou de super-heróis, tinha a cor rosa-vivo. Era muito doce, saboroso, e demorava para ficar sem gosto, o que só ocorria depois de jogado de um lado para o outro da boca, de ser comprimido pela língua no céu da boca e de fazer muitas bolas, que até estouravam. Hoje a mesma marca de chiclete tem metade do tamanho de antes, é sem cor e não o acompanha mais a figurinha, muito menos o papel de proteção.

Essa é uma nostalgia própria do tempo de criança, da minha infância inocente, quando eu sonhava e não sofria, na verdade eu apenas esperava, pois tinha certeza de que os meus desejos iriam se realizar. Quando eu saia da escola, vestida com meu uniforme, camisa branca, saia cinza, sapato-boneca, preto, e meias três quartos, eu corria para comprar o tal chiclete e, imediatamente, o colocava na boca e saia pulando feliz, em disparada para casa, para brincar, assistir na TV o desenho da Princesa Safira, uma personagem que andava em um cavalo branco e usava uma linda capa azul. Era a minha heroína, sempre em defesa dos oprimidos. Gostava ainda de assistir filmes com Elvis Presley, o homem mais lindo daquela época. E tudo era prazeroso.

Eu também assistia a todos os filmes romântico-musicais, que passavam na Sessão da Tarde – tudo o que fazia era puro deleite. Por exemplo: Escorregar no barranco e fazer todas as estripulias que surgiam à frente. Eu esperava, todo dia, acontecerem às coisas boas, sem nenhuma ansiedade ou stress. Quando acontecia algo ruim e inesperado eu também não sofria quase nada. Eu não conhecia ou nem sabia da existência de tanta gente ruim no mundo, tanta concorrência desleal, tantas maldades...

Essas recordações me tomaram hoje, depois que almocei e senti uma vontade enorme de comer um doce, como não podia gastar muito, juntei as moedinhas que tinha na carteira e comprei o chiclete e aqueles dadinhos doces. Percebei que estes também já não têm mais o mesmo sabor de antes. Até os dadinhos já não são mais os mesmos... Percebi ali o real: Tudo passou e passou muito depressa pra mim. Muito do que era bom tornou-se ruim, e como na brincadeira, “o que era doce se acabou”.

Na vida tudo muda, pra uns melhora, pra outro não. Mas, uma coisa é certa: Tudo fica diferente. E por quê? Sorte, criação, amigos, educação, oportunidade? Ou tudo junto? Na verdade eu não sei a resposta, mas, gostaria de entender, porque as coisas ficaram piores e porque as pessoas mudam o mundo e mudam sempre pra pior?

Uma certeza eu tive naquele momento, logo depois de abrir o chiclete nada atraente: Tenho muitas saudades desse tempo e quero o chiclete antigo de volta. Sentir novamente o prazer de sonhar e de acreditar que tudo pode ser mais gostoso, consistente. Quero acreditar que amanhã eu vou ser feliz, sem medos, sem correr tantos riscos.

Eu não quero ser constantemente tragada por um erro passado. Quero ter a chance de acertar. De sentir o gosto bom de um bom doce, sem que ninguém pelo menos tente me vender um chiclete insosso, destes de hoje...
Joelma di Ferrarezi
Enviado por Joelma di Ferrarezi em 10/07/2006
Código do texto: T191210
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Sobre a autora
Joelma di Ferrarezi
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
10 textos (759 leituras)
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Joelma di Ferrarezi