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MINHA CASA DE BONECAS


Toda menina ao crescer, lembra dos dias felizes de sua infância, das horas alegres, das peraltices, das brincadeiras de casinha com as imprescindíveis bonecas. Qual menina nunca brincou de boneca? Poderia ser de trapo ou qualquer outro material. Pois é, a nossa casa de bonecas (minha e de minha irmã) funcionava num antigo tonel de latão, pintado externamente de azul, uma tática usada por papai, para evitar ferrugem.
Duas alças, estrategicamente colocadas lateralmente, facilitavam o transporte do tonel, que percorria a casa, o pátio e às vezes, a calçada, onde instalaríamos a nossa casinha. Era a legítima casa ambulante.
Quando a tampa do tonel era retirada, o mundo mágico adormecido ali dentro, ganhava vida e saía às ruas para mostrar todo seu encantamento: bonecas de pano ou de celulose; de louça ou de palha de milho; de plástico e uma negra baiana, feita de panos,  que ganhava de todas! Vestida com roupas típicas tinha duas argolas enormes nas orelhas e nos dedos, unhas de galinha!
Depois das bonecas, vinham as mobílias: quarto, sala e varanda produzidas  artesanalmente por Waldemar e Herne Dreher, filhos de minha inesquecível madrinha Rosa. Esses brinquedos povoaram minha infância, meu mundo de fantasia, até a hora natural, em que abandonamos esse tipo de brincadeira. Um dos brinquedos que mais admirava era um fogão à lenha, feito em madeira, com detalhes pintados artisticamente. Lá pelos meus cinco anos, ganhei um ferro de brasa, para passar roupa. Naquele tempo, sequer cogitávamos de ferro elétrico. Guardo até hoje, como relíquia, esse objeto. Como era bom e que saudades tenho! Quando eu tinha sete anos, minha madrinha mudou-se para Porto Alegre. Sua casa, que ficava bem ao lado da minha,  foi vendida. Agora, ali residia um senhor muito simpático que tinha uma penca de meninos. Aquela casa, para mim tinha um valor sentimental inestimável. Era a casa da madrinha Rosa e do padrinho Edgar, havia uma fábrica de sonhos em seu porão – a oficina onde, das mãos dos guris, brotavam os mais belos brinquedos que ganhávamos nas datas festivas: aniversário, Páscoa ou Natal. Além disso, no sótão, morava Papai Noel! Em suas amplas janelas verdes, quando menos esperávamos, surgia Papai Noel. Geralmente, em momentos críticos, quando estávamos fazendo qualquer bagunça como, por exemplo, intenso barulho logo após o almoço, na hora da sestea ou comendo frutas verdes. Lembro que havia no pátio um caramanchão de plantas vivas, bem fechado, tom verde oliva, recanto dos deuses! Nós adorávamos ficar lá conversando, brincando. Quando chovia e a chuva não era forte, podíamos nos refugiar nele, pois parecia que era impermeável.
Enquanto viajo pelos dias alegres de minha infância, rememoro que certa feita estávamos eu, minha irmã e outras garotas, brincando, bem rente à cerca viva, que separava minha casa, da antiga casa da madrinha Rosa. Seus novos habitantes, cinco meninos D.I.O.U. – ‘di outro mundo”, eram terríveis! A própria encarnação do demo! Enquanto brincávamos, Nico, o filho mais velho de seu Agnelo, começou a mexer conosco, que parece, não tínhamos outro lugar para brincar, senão bem nas barbas dele. À medida que ele vinha implicar conosco, eu ia enfurecendo. Quanto mais furiosa ficava, mais Nico incomodava, atirando areia em nós. Naquela época, usava cabelos  compridos, trançados, aos quais odiava! Além disso, não havia xampu ou condicionador para lavá-los. Era sabão de pedra mesmo e muito óleo de mocotó. Verdadeiro suplício penteá-los!  Não é que Nico encheu minha cabeça de areia? Sem raciocinar, levantei insultando-o e joguei nele o que tinha à mão: uma lata de azeite, de forma retangular, com a borda superior perfurada, com a melhor faca que minha mãe possuía, pois não tínhamos abridor. Se eu tivesse pontaria certeira como naquele dia ao apostar na Mega Sena, seria milionária. Não é que acertei a cabeça do Nico? A danada da lata abriu uma fenda e ficou lá, alojada! Enquanto ele corria pelo pátio, pedindo socorro, o sangue jorrava, a lata encravada balançava e não caía! Apavorada, chamei minha mãe, que foi ajudar dona Enedy, mãe do Nico. À pouco tempo, encontrei Nico, comentamos o ocorrido e demos boas risadas. Outra coisa que não deu para esquecer, foi a tunda que levei em razão da latada certeira. Hoje, quem me conhece, não imagina  as travessuras inenarráveis que povoaram minha infância.

Maria Rita
Enviado por Maria Rita em 12/07/2006
Código do texto: T192369
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Sobre a autora
Maria Rita
Santa Maria - Rio Grande do Sul - Brasil, 68 anos
7 textos (483 leituras)
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