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As Formigas

          Era uma casa muito engraçada, tinha o portão de grades e janelas verdes e paredes brancas. Era uma casa situada numa cidadezinha no interior, na beira de um barranco, no alto de uma montanha. A casa tinha alguns quartos e era de férias. Isso significava que ninguém morava lá e que vivia a maior parte do tempo abandonada, a não ser pelo caseiro que, uma vez por semana, por lá passava para verificar se tudo estava como conforme.
Em um verão, daqueles bem quentes, de botar o chapéu e tirar a camisa, a família proprietária foi passar alguns dias lá. Era a mãe e o pai, o primogênito e o caçula.
Era uma família comum, vivia feliz com todas as infelicidades da vida monótona.
Como toda casa de campo, sempre haviam problemas a serem resolvidos. E dessa vez era o excesso de formigas que atacavam todas as comidas, que faziam uma enorme fila no portão verde, que se alastravam por toda a casa.
A mãe, a mais ativa, em uma manhã comprou um veneno que lhe foi indicado e passou na trilha das formigas.
Como de costume, a família saiu, toda junta, para um passeio até o centro da vila. Como de costume, o passeio foi monótono. Como de costume, tiveram que subir a montanha a pé. A mãe e o pai fungando forte, cansados, subiam lentamente. Os filhos, esportistas, subiam mais facilmente, principalmente o primogênito.
Subiu até a rua mais alta, a rua da sua casa. Uma breve descida o separava do portão. Á frente dele pode ver o ponto de ônibus e mais adiante algumas crianças “nativas” que brincavam de bola ou de pipa, não está claro para ele agora.
Foi então que, ao reparar pela primeira vez em sua casa, viu algo inesperado, algo que o assustou deveras. As formigas não duplicaram nem triplicaram seu número. As formigas agora revestiam todo o chão da garagem, as paredes brancas e a porta verde!
Chegou mais perto com medo e com curiosidade, com vontade de salvar seu patrimônio e de entender o que estava acontecendo. Logo pode focar e ver que muitas estavam mortas, outras estavam loucas, mas a maioria se amontoava em volta do veneno.
A quantidade de formigas era assustadora, o menino quase caiu no chão sem sentidos. Foi quando percebeu uma rachadura na parede por onde milhares de centenas de formigas saiam no passo mais rápido que podiam em direção ao reboliço. E viu que quanto mais formigas saiam, maior a rachadura ficava.
Aterrorizado, naquele estado em que não pensamos nem agimos, o garoto apenas ficou a observar. Seu irmão estava muito longe. Seus pais, nem se fala. Ou ele fazia alguma coisa, ou provava a fraqueza humana diante de tão temível rival.
Escolheu, ou melhor, não teve tempo de criticar qual era a melhor atitude a tomar e, por isso, escolheu a última opção. Ficou apenas como um assistente, como um torcedor em um Corinthians e São Paulo.
Em alguns minutos, para seu terror, sentiu-se como se seu time tivesse sofrido uma goleada no clássico - a fenda tanto se abriu que a casa ruiu, gemeu, deu um tristonho adeus e caiu.
Depois, examinando com detalhes, os especialistas disseram que a estrutura da casa eram as formigas, que o cimento estava oco e, quando toda aquela legião de formigas saiu da casa, a casa ruiu abaixo pelo barranco – se desfez em pó, virou poeira no vento, não sobraram nem as bactérias...
- Uaaaaa! Bom dia! – Se espreguiçou o jovem, após uma noite de sono. – Que sono esquisito que eu tive... – pensou consigo mesmo.
De repente, sentiu uma coceira no peito. Levantou a camisa e viu centenas de formigas em seu corpo. Acendeu a luz, olhou no chão – as formigas infestavam-no. E então se lembrou do seu sonho – agora era real...
Vinicius Razumikin
Enviado por Vinicius Razumikin em 12/07/2006
Código do texto: T192772

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Sobre o autor
Vinicius Razumikin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
23 textos (932 leituras)
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Vinicius Razumikin