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Uma Noite Iluminada...Por Uma Lâmpada de 100 Watts

23:40 - Maridex chega, abraça, beija-me. Ajoelha-se, segura a filhota no colo. Faz-lhe mimos e agrados. Dez minutos depois, eu subo, acompanhada da mini-me. Nos trocamos, eu com minha camisola, ela com seu pijaminha de ursinhos sonolentos. Olho para ele com inveja. Amanhã preciso chegar cedo no trabalho.

00:25 - Mini-me dorme, quase ronca. Maridex entra no quarto, pergunta se está tudo bem. Respondo que sim. Ele está com dor de barriga. Culpa do macarrão que fiz, não das besteiras que come no decorrer do dia. Pede pra desligar a TV e avisa que amanhã, conversamos mais. Desligo a TV e fecho os olhos, sabendo que é inútil.

00:53 - Desço, a casa está completamente ausente de ruídos. Pego um livro, não consigo me concentrar nas letrinhas. Ligo a TV. Jô ou MTV? Fica na MTV, mas a Penélope me chateia. Vou a cozinha, abasteço meu copo de coca. Tenho reunião às 8:30. Não posso me atrasar.

1:40 - Internet, internet. Ai que dor nas costas. Preciso deitar um pouco, esticar a coluna. Vou pro sofá. Desconfortável deitar nele. Sento. Controle. Onde pus o controle? Aqui. Mudo de canal. A Cor Púrpura. Bom filme, mas já assisti 5 vezes. Muito dramático não preciso acabar a noite aos prantos. Motivos pra chorar vou ter amanhã, na hora de levantar.

1:55 - Felicity. Não gosto dela, mas o Noel é engraçadinho, atrapalhado. Todas as mulheres deste seriado são chatas. Tem algo vivo na minha barriga. Corro pra geladeira. Olho e nada me apetece. Será que avisei o consultor que a reunião está confirmada pra amanhã às 8:30? Acho que vou comer bolachas. Avisei. Combinamos que ele faria a parte social e eu a burocrática. Ah! Preciso do copo de coca...Esqueci de pagar a conta do celular e as Casas Bahias vai vencer no sábado. Preciso lembrar o maridex de baixar aquela música que venho pedindo faz uma semana! Como ele pode esquecer?

2:08 - Felicity decide não fazer medicina e sim virar artista. Não quer seguir os passos do pai. E quem quer seguir os passos de outrem. Trilhar o próprio caminho é mais original, além de mais emocionante. Pôxa! Terminou com o Noel. Porque tem mulheres que acham que tooodos os problemas da vida delas serão resolvidos se sumirem os homens? Cigarro. Onde pus o isqueiro? Ai, ai... Levantar de novo pra buscar na cozinha... Queria ter o dom da tele-transportação. Ou mexer meu narizinho e materializar meus objetos... sem muito esforço. Olho pro verso do maço. Um pulmão preto. Nunca acreditei que esse tipo de campanha de conscientização aos malefícios do tabaco fossem fazer efeito. Fumante é bicho burro e teimoso, assumidamente. Tusso. Aquela tosse seca, de final de gripe, mas o gosto da fumaça pareceu-me com o gosto de um pulmão queimado, o pior: dentro de mim. Preciso parar de fumar. Como assim? Nunca mastiguei um pulmão queimado. Mas suponho que se o fizesse, o gosto seria este que impregnou aqui...

2:44 - Felicity volta atrás e fará medicina. Acho que percebeu que nem todos médicos são como seu pai. Começa a lenga-lenga de se desculpar com todo o elenco. Exceto com Noel. Ele ficará pro final, claro! A gente vive se desculpando. Esbarra em alguém: desculpe-me. Diz o que pensa: desculpe-me. Às vezes, fala brincando, achando que saberão que é brincadeira, mas antes que pensem o contrário: desculpe-me.Fica sem tempo pra dar atenção: desculpe-me. Erra relatório porque falam demais no seu ouvido, tiram-te toda concentração: desculpe-me. Daqui à pouco, vamos pedir deculpas por existir, repirar, ser feliz? E já não pedimos?

2:55 - Ela (Felicity) vai pedir desculpas ao doce e cordato Noel. Pra variar ele começa desculpando-se. Depois começa a gritar, pra disfarçar. O cargo dele não admite que namore uma aluna de seu andar. A gente precisa manter as aparências. Será? A felicidade está nas aparências? No status?

2:58 - Celly, acaba o episódio dando seu sermão. Corrijo-me: Celly é uma personagem (que nunca aparece, apenas ouvimos sua voz) dando seu sermão básico. Diz que pensou no que ela disse (porque as pessoas pensam no que as outras dizem?):"O que eu vou ser quando acabar a faculdade". Celly, a lúcida, responde: "Eu, aos 34 anos, não descobri, essa é uma busca, que nunca termina". Ainda bem. Ter a vida determinada a ser sempre aquilo,  parece-me entediante, desmotivador.

3:13 - Volto pro pc. Dou mais um gole na coca, que já está esquentando e ficando ruim. Coca quente é horrível! Visitar pessoas que descobriram meu blog não sei como. Preciso retribuir a visita. Ser educada. Além de algum tipo de câncer, será que terei também úlcera? Porque será que as pessoas se matam? Eu, me matando aos poucos, com o auxílio dos meus vícios. Outros com uma bala, um canivete a lhes cortarem os pulsos, ou comprimidos ingeridos. O que faz uma pessoa acabar com a própria vida? Como nutrem tamanha tristeza? Como é possível não se ver beleza neste presente que Deus nos deu? Vida que a gente dá rumo. Vida que nos compete e a mais ninguém. A mais ninguém mesmo? Não vivemos precisando dos outros? Como seria o mundo com um único habitante?

3:27 - A Whoopi Goldberg está fantástica neste filme, mas prefiro ela comediante. Pastores e mais pastores. Sai deste corpo que ele não lhe pertence. Não acredito em humanos que dizem não possuírem um demoninho dentro de si. Pessoa nenhuma é santa. Nem os canonizados. Todos carregamos pecados. Será que dá pra quantificar os pecados? Não, não vou pensar nos meus agora...

3:41 - MTV de novo. João Gordo em reprise. O Gordo uma vez por semana já me basta. Pego de novo aquele livro. Estou com tanta vontade de lê-lo. Acho que a essa altura, as letras miúdas embaçarão meus olhinhos, trazendo-me a sonolência necessária pra subir as escadas. Podia fazer uma escova no cabelo. Mas a constância barulhenta do secador ecoaria pelas paredes da casa. Acordando quem, tranqüilamente, descansa. Deixa pra lá. Amanhã é 6ª, permito-me até o jeans. Passo um gel no cabelo e tá tudo certo. Sócio nem vai ver e criticar. Como ele critica! Mas também elogia. Tadinho. Ele é pior do que eu pra segurar a língua... Pensando nisso, que roupa vou colocar ao amanhecer? Melhor pegar agora.

4:08 - Subo as escadas. Ascendo o abajur. Não posso me atrasar amanhã. O fechamento me trará boa comissão. Abro a gaveta com um esforço e força pra não fazer barulho. Essa não. Amanhã continuará frio. O que aconteceu com o clima desta cidade? Plena Primavera e o frio imperando por aqui. SP não se define por uma estação. Em qual estação estarei eu? Faz tempo que não hiberno.. Importante ter-se inverno na alma. Primavera também não, as flores não fazem parte da minha vida. Plantas precisam de conversas... Verão? Não, não estou assim tão exuberante. Outono. É. Outono. Minhas folhas cairão ao despertar do relógio.

4:12 - Olhando a cama, com o maridex deitado em forma de concha, animo-me ao pensar que será gostoso esquentar meus pés nos dele. Levanto o edredom. Sai um mormaço convidativo. Encosto meus gelados pés nele. Um resmungo inconsciente. Não dou atenção. Como ele pode ser tão quente??? Um braço pesado caí sobre minha cintura. Pronto, estou protegida. Protegida do quê? Fecho os olhos, agora a cabeça vai render-se...
Cherry
Enviado por Cherry em 24/05/2005
Código do texto: T19341
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Sobre a autora
Cherry
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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