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A Vida Da Palavra

Passamos pelos rios, que passam por nós, transformando-se em outros rios aqui, sendo os daqui logo ali para outros olhos e deixando de ser rio no mar ou sendo rios maiores no encontro com outros rios.
Rios têm vida. Com os sintomas de todas a vidas, acidentadas, calmas, lânguidas, em volta de remansos e em paz ou não. Interrompidas bruscamente, nuas, ricas, lindas, pobres, caladas e em guerra.
As palavras são rios. Caudalosas, arrastando montanhas, frágeis montanhas diante da força da vida contida nas palavras escudadas nos canhões. As palavras são rios, balsamo para os pés, para a cabeça e os corações, deleitando as mulheres sós nas noites travessas onde o silêncio aninha sussurros despidos da fôrma palavra. E aí são pequenos rios de calor correndo por entre as curvas secretas das amantes que se deitam ávidas por velhas palavras, rios aquecidos renovados, preservados e cultuados.
As palavras são rios, crianças se sós, mártires se fracas, déspotas se ancoradas nas armas, guerreiras e justas se contidas no ideário dos sonhadores homens que imaginam a liberdade; primeiro como palavra, depois por palavra e por fim para palavra.
As palavras tem braços, longos braços, quase tentáculos, de apertar forte, de abraçar firme, sólidos braços de enredar, induzir e enredar. As palavras encantam, agridem, agradam, desencantam e fazem pousada à roda das fogueiras, nos balcões dos bares, nas estreitas ruas de definidos destinos, bêbados destinos das palavras, nascidas para embalar, as mesmas, para sacolejar, nestes passos bêbados de não saber quem são, a quem pertencem, vagas, diretas.
As palavras continuam sendo rio. Escorrem por entre nossas gargantas, cavam subterrâneos e assumem vida nova, independente de nós, saem por aí fazendo estradas e estragos ou reconstruindo-se, com novos tons, dando-se autoria, apontando-se, apontando-nos, caudalosas, irreconhecíveis, filhas pródigas  de nossas gargantas, de nossas penas, nossos teclados, meninas mimadas, doces, na boca amarga dos desempregados; amargas, arredias, arranhadas, feridas doloridas, na boca ontem doce da amada esquecida.
Palavras e rios, rios de palavras. Acabam se encontrando para nosso encanto.
Manoel Leão
Enviado por Manoel Leão em 24/05/2005
Código do texto: T19366
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Sobre o autor
Manoel Leão
Juazeiro - Bahia - Brasil, 66 anos
8 textos (615 leituras)
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Manoel Leão