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O relógio marca 18:23 horas, gira a chave, abre a porta, entra. A bolsa fica abandonada na sala, entra no quarto apanha o roupão e uma caixa nova de sabonete. O telefone toca. “Não...” – pensa. Atende. “A que horas você chega? (...) Mas você não disse que viria?”. Suspira. Disse, disse que iria, mas não vai, e não somente pelo compromisso inadiável da noite de sábado ou pelo fato de não ter ao menos nem lhe ligado em seu aniversário, mas muito mais pelos trezentos e tantos quilômetros de ida e os outros trezentos e tantos de volta. “Em 19 horas jamais!!”. Como despedida escuta um resmungo do outro lado da linha. Desliga.

Liga o chuveiro, entra, água quente escorrendo pelas costas. Gosta. Água quente escorre mais, alcança as pernas, os pés, respinga pelo chão. Relaxa. Vira-se, esqueceu o sabonete sobre a cama: “Tudo bem, ainda tem o líquido”. Ensaboa-se da cabeça aos pés. Muita água quente, o banheiro começa a ganhar ares de céu. Nuvens.

A sensação da água escorrendo pelas costas lhe dá uma esperança ausente por todo o dia. O corpo começa a reclamar daquela quentura. Irrita-se. Desvia do jato, encosta o corpo na parede gelada. Treme. Agora os pés se escaldam na corredeira transparente. Xampu, condicionador, óleo de maracujá. Respira-o.

Alcança o roupão, prende o cabelo encharcado na toalha. Sai. Olha para a cozinha, lembra da carne que deve descongelar, coloca-a sobre a pia.

Volta ao quarto, alcança o isqueiro. Fuma.
O relógio marca 19:05. “Dá tempo, ainda tenho duas horas”. Liga a música, penteia o cabelo, vê notícias no computador. “Não, chega de crime organizado por hoje”. Pensa em escrever, mas está sem vontade.

Vai para a cozinha, prepara seus molhos, frita a carne e faz um belo arroz. “Strogonoff, ele adora!” – balbucia.
Ele demora mais que o previsto, seu estômago reclama. Serve-se sem cerimônia ou culpa. Come.

Estica-se pelo sofá, o toque do tecido acalenta seu corpo.
Ele chega, beija-lhe a boca e diz que vai tomar banho com um rosto imensamente cansado, ele vai, ela fica pensando em como os próximos meses serão longos. Ontem ele lhe disse empolgado: “Serão somente oitenta dias!”, hoje durante o almoço, com um tom totalmente distinto falou: “Agora só faltam 79”.

Volta à cozinha, prepara seu prato, ele janta. Gosta, elogia e algum entusiasmo retorna a seus olhos.
Rumam para o quarto, cinzeiro sobre a cama. Fumam. Ainda é cedo, mas ele boceja. Cama. É abraçada para dormir, mas o abraço demonstra outros desejos. Atende-os. Boca e mãos deslizam pelo seu corpo. Goza.
É abraçada novamente. Adormece.
Kari Capraro
Enviado por Kari Capraro em 14/07/2006
Código do texto: T194104
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Sobre a autora
Kari Capraro
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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