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Gordura ou Gostosura?

Angélica T. Almstadter
 
        Aquele despir-se e defronte o espelho e desfilar em vários ângulos já era de praxe, sempre se achava gorda, sempre lhe sobravam carnes no ventre e no bumbum, se prometia nada mais de massas e doces, iria fechar a boca por uns tempos, refrigerantes então nem pensar.
        Quando se encontrava com algum amigo ouvia: Você está tão elegante, como consegue se manter assim magrinha? Aonde será que lhe viam magreza se até  os espelhos do shopping evitava porque se via enorme neles. Por ser discreta no vestir-se não mostrava as carnes a lhe sobrarem; ainda assim despertava atenção quando na rua caminhava, e cada vez que ia comprar roupas a vendedora se enganava no número pra menos, era a famosa falsa magra.
        Ouvia comentário do marido: Você tá gordinha heim! porque não faz um regiminho. Podia até enxergar escorrer pelo canto dos lábios dele  o visgo branco.
Já não era mais jovem, já entrara pela casa dos quarenta há tempos, mas mantinha o espírito jovial, um sorriso cordato e um indisfarçável viço no corpo, o que perturbava quem com ela mantivesse um contato mais constante.
        Não fechava a boca pra nenhum docinho, nunca injeitava um refri, pizza então não passava sem ela de jeito nenhum, mas olhar no espelho o corpo nú...incomodava, não tinha mais cinturinha de menina, e como os seios eram pequenos, os quadris lhe pareciam muito maiores, e o bum bum então? Impossível disfarçar o quanto estavam avantajados, seu o consolo era que bum bum grande sempre foi um requisito para os padrões da terrinha.
        De quando em quando se perdia olhando no espelho desconsolada porque não conseguia fazer um regime nem tão pouco tinha paciência pra malhar, e perder aquilo tudo do nada, era impossível.
Foi num desses dias que estava injuriada e leu um artigo interessante sobre o "estereótipo de mulher" que percebeu que enquanto a maioria das amigas fechavam a boca em regimes estapafúrdios, secavam para o prazer, e quanto mais a neura da magreza crescia, mais e mais o tesão sumia. E quem disse que homem gosta de mulher só pele e osso? Que graça podia ter vestir uma roupa e nenhum volume lhe aparecer? Gostava de preencher completamente as calças, sentia os olhares masculinos acompanhando o movimento do bum bum, quando passava, poderia haver elogio melhor que esse? Onde chegava sua presença era notada e acompanhada por olhares atentos. Não faltavam gentilezas para lhe abrir portas de bancos ou ceder um lugar para se sentar.
Sempre haviam olhos cravados nos seus modos e trejeitos; e se ousava um decote, ainda que bem discreto, via colados no seu colo branco olhares gulosos, e nunca ficava muito tempo em uma sala de espera.
        Mesmo não tendo proporções perfeitas, sabia que o seu seios cabiam direitinho numa taça e que apesar dos centímetros a mais no quadril e no ventre, não tinha "dores de cabeça" e muito menos fingia sentir prazer na hora aghá. Pra quê então fazer regime? Se o que tinha não era gordura mas... excesso de gostosura.
Angélica Teresa Almstadter
Enviado por Angélica Teresa Almstadter em 24/05/2005
Código do texto: T19419

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Sobre a autora
Angélica Teresa Almstadter
Campinas - São Paulo - Brasil, 62 anos
1054 textos (55634 leituras)
25 áudios (3274 audições)
1 e-livros (247 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 10:33)
Angélica Teresa Almstadter