Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Caldeirão, a limusine e a meia

Quem assistiu ao programa “O caldeirão do Huck”, no último sábado, teve oportunidade de se deliciar com a história de seu Fernandes, um nordestino da cidadezinha de Barbalha, no interior do Ceará, que teve seu carro restaurado no quadro “lata velha”.

Seu Fernandes tem uma história pra lá de interessante. Um belo dia, ele resolveu vender sua casa em Barbalha e morar em Fortaleza, CE. Chegando lá, assistiu a um filme onde Julia Roberts chegava num casamento de limusine.  Gostou da idéia e resolveu dirigir uma limusine de aluguel. Vendeu sua casa novamente, e, com o dinheiro, fez uns arranjos, juntando motor de um carro, traseira de outro, até obter algo próximo de uma limusine, para começar seus trabalhos. Entretanto, o carro de seu Fernandes não atendia às expectativas, e o próprio dono tinha vergonha de mostrar a máquina aos fregueses durante o dia. Então, ele não contou conversa: foi a um show da banda Jota Quest, puxou o baterista pelo pé e conseguiu que ele fizesse chegar às mãos do Luciano Huck uma carta. A tal carta era um pedido para participar do “lata velha”. O que eu sei é que, após muitas brincadeiras, o carro foi restaurado, ficou um brinco, e o persistente senhor ganhou um traje à altura para exercer sua profissão de motorista.

E por aí terminou. Nessa história toda, entretanto, há uma coisa que me incomoda deveras: a personalidade do seu Fernandes. Por que? Por causa de sua persistência? Não. Por causa da humildade e do bom humor que demonstrou? Não. Francamente, por causa de sua matutice.

Paulistas, cariocas e todo o pessoal daí de baixo do mapa que assistiu pode ter achado muitíssimo engraçado, ou até mesmo natural, o fato de seu Fernandes ter um jeito meio trigueiro de homem simples do campo, que fala com um sotaque meio abestalhado e tem certa dificuldade de entender as coisas. Mas quem é do NE tem motivos ( e justos, acredito) para sentir o sangue ferver diante de palhaçadas televisivas assim.

Não falo do homem do carro em particular, que me parece ser excelente pessoa, nem mesmo culpo a produção do programa por ter tratado com um provinciano, mas é fato: sempre que um nordestino aparece na televisão, eles fazem o possível para pôr um nordestino pobre, ou analfabeto, ou que fale muita besteira, para passar a impressão de que nós aqui somos pobres, analfabetos, e falamos muita besteira.

Aparentemente, a mídia se diverte em fazer propaganda negativa do Nordeste, colocando em evidência gente simples e sem instrução, pra o pessoal aí em baixo ficar pensando que aqui só tem matuto. E, vendida pela televisão, a idéia do paraíba ignorante ganha força. Certa vez, um amigo meu organizava um evento em uma cidade no interior do Ceará, ao qual compareceriam pessoas de todo o Brasil. Ele recebeu o seguinte telefonema, de um gaúcho:

- Bom dia.
- Bom dia.
- Sobre o evento tal, que vai acontecer dia tal, como é que eu faço pra chegar aí na sua cidade?
- ??? O senhor compra a passagem e desembarca aqui.
- Mas, como, tchê? Aí tem aeroporto?
- Claro.
- Aí, me diz uma coisa, você pode me indicar um bom local pra eu me hospedar, onde tenha água, essas coisas...
- Meu senhor, qualquer hotel daqui tem água, fique tranqüilo.
- Mas, como? Aí tem até hotel, tchê? Com banheiro e tudo?

Sim, temos banheiro. Não andamos de carroça, pelo menos não todos, aqui tem aeroporto, shopping, estrangeirismo e multinacionais até além da conta. Temos profissionais competentes nas mais diversas áreas, só que eles não aparecem. Nunca vi um grande médico nordestino dando entrevista na Adriane Galisteu. E olhe que temos médicos excelentes. E, para interpretar uma personagem nordestina, como aconteceu na novela “Senhora do destino”, por que chamar uma atriz que não conhece a realidade do nordeste se há outras, com a mesma competência, que se encaixariam melhor no papel, por fazerem parte do universo cultural da personagem? Por que não dizem que o Ceará aprova mais no ITA do que São Paulo? Por que não dizem que a cidade de Campina Grande, PB, é uma referência internacional em informática?

Essa visão simplista de região-problema está longe de corresponder à realidade. O NE brasileiro anda precisando ser visto como realmente é: uma região heterogênea, que sofre muito mais com a politicagem do que com as condições naturais. Que anda permeada de desigualdades horríveis, sérios problemas estruturais, mas, também, tem uma cultura ímpar e um desenvolvimento considerável para mostrar.

Enquanto imperar esse orgulho besta do coração econômico do país, o Brasil só tem a perder. Perde-se o dinheiro que se gasta lá fora, quando o turismo dentro do território poderia gerar renda para nós todos. Perde-se a oportunidade de gerar empregos, de promover uma melhor integração cultural, de curtir coisas boas que o país tem a oferecer... E, acima de tudo, gasta-se saliva em discussões  estressantes e rivalidades medíocres.

Um bom exemplo é aquele meu amigo, que, perguntado sobre a existência de banheiros aqui pela terra do sol, convidou o gaúcho a fazer suas necessidades numa meia. Resposta bonita, não foi. Mas ninguém mandou provocar. E, já que nordestino aparece quase nunca na televisão, quando resolverem pôr um, coloquem alguém que nos faça boa figura. Ficamos gratos. Se quiserem nos conhecer, serão bem vindos. Desde já, repito:tem banheiro.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 16/07/2006
Código do texto: T195285
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139780 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 22:26)
Jéssica Callou