Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

RECEITA PARA INSÔNIA

                                Acordei antes do tempo numa noite desta semana. Com esses calorões extemporâneos não há quem consiga dormir sossegado. Não me recordo em toda a vida noites tão quentes em julho. Perdi a memória ou realmente há destempero na temperatura. Acordar no meio da noite interrompe o ciclo do sono, falou um médico na TV. Supere a ansiedade, relaxe e aguarde um novo ciclo, aconselhou.
                      Meu roteiro para insônia: 1) conto ovelhinhas; 2) tomo um chá relaxante; 3)leio um livro; 4) meia garrafa de vinho.
                               A quarta etapa do roteiro quase nunca se realiza. Bons vinhos são caros. O “after day” pode ser mais nefasto que a insônia. Chego à terceira etapa algumas vezes. Já a segunda é trivial. Chá é barato e, faltando - com um cabo de vassoura e uma cesta de arame na ponta - roubo umas folhas de hortelã da sacada ao lado. Contar ovelhinhas também tenho evitado. Nestes dias quentes, dá pena vê-las fazendo exercício pesado com tão grossos vestidos de lã.
                              Nossa cozinha fica ao sul do prédio, vistas ao pátio de uma residência. Enquanto o chá esquentava no microondas, olhei pela janela e, à luz da rua, conversei com um pessegueiro florido. Somos pelo menos dois os traídos por sinais errados dos tempos. Ele também acordara no meio do inverno e pôs-se à realização de seu programa de primavera: 1) florescer; 2) frutificar; 3) amadurecer; 4) produzir caroços férteis. Diferentemente de mim, posso desencadear meu roteiro diversas vezes em qualquer estação, o pessegueiro só tem um único por ano.
                               Tirei o chá do microondas, pus o saquinho no lixo. O pessegueiro já está com pequenas frutas; etapa dois, revelam no chão suas flores desidratadas. Pêssegos condenados à morte por uma geada qualquer do mês de agosto.  Perdeste o ciclo deste ano, vizinho, cochicho como se tivesse ouvidos. Um ano sem fruto e semente.
                                 Tomei o chá e voltei aos lençóis. A vida, às vezes, nos atiça ao azar de pessegueiro, coisas de ser traído por primaveras doidas. Não apenas acordamos em noites quentes. Muitas vezes perdemos ciclos por falsos alarmes de tempos propícios. É preciso aprender com os pessegueiros segredos da resignação. Admitir um diagnóstico errado das expectativas, sem remorsos ou culpa. Embora as estações tenham uma seqüência repetida há milhares de anos, e estabeleçamos rotina e hábitos, vertem vazios e desrazão no corpo da linearidade.
                                 Recebo de São Paulo e-mail de minha irmã. Poucos paulistanos estão dormindo bem, inclusive ela. Não por causa do calor, mas pela angústia líquida da violência do PCC. Autoridades paulistas garantiram segurança, os ataques haviam sido soterrados para sempre em seus próprios escombros. Celulares bloqueados, policiais nas ruas. Viriam tempos de serenidade sem intercursos. Bom para o sono e os sonhos. Viriam.
                               Minha amiga classificou-se em 20o lugar em um concurso, tinha grande expectativa para ser nomeada. Havia 22 vagas possíveis. Faltava apenas um detalhe administrativo e estaria com um rentável e estável emprego.  Chamaram até a 19a e esgotou-se o tempo de prorrogação legal. Seu antecedente na classificação acertara apenas uma questão a mais em Língua Portuguesa. Um descompasso no tempo.
                              O pessegueiro não é um idiota por desandar-se a produzir flores em meados de julho no hemisfério sul. Ele apenas avaliou, com os sentidos de seu coração de árvore, os dados reais do mundo.
                              Ninguém se culpe  por perder o sono. Não somos os únicos.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 16/07/2006
Código do texto: T195582
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5113 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 17:25)