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" Eu e Lairzinha com seis anos "
Evaldo da Veiga



Estávamos no início de janeiro e eu havia feito seis anos 
no último Natal.
Agora, teria a mesma idade de Lairzinha até o dia 21 de novembro. Período bom ter a mesma idade um do outro. 
No meu aniversário não teve bolo e assim meu plano de ficar
de bem com Lairzinha fracassou. Pretendia cortar o bolo 
e dar o primeiro pedaço pra ela e um abraço bem apertado. 
Lógico que ela ia notar que o pedaço de bolo
e o abraço eram  pedidos de ficar de bem.
Ela também não estava tão de mal assim porque ontem me perguntou qual era o tamanho de um avião. 
Eu que sempre ouvi os adultos dizerem que um avião era
muito grande, parecia pequeno porque víamo-lo de muito longe, respondi que era do tamanho de um morro ao outro; 
ela pensou que eu tinha dito a altura de um morro mas eu consertei: apontei para o morro a esquerda e depois 
para um morro da direita e disse que o tamanho era de um ao outro. Ela arregalou os olhos lindos e clarinhos e disse com sua voz clara de um som puro e gracioso:
- Caramba, então cabem todas as pessoas do mundo 
dentro dele!!! Aquilo me deixou curioso e fiquei ansioso pela chegada do meu pai para esclarecer se todas as pessoas
do mundo caberiam dentro de um avião.
A padaria, farmácia, o armazém e até a quitanda do pai da Lairzinha ficavam a mais de um quilômetro
de distância. Perto, somente um barzinho feito de tábuas de caixote e telhado de sapê.
Assim era eu que ia comprar o que faltava das compras da quinzena ou da semana. Ia e voltava correndo,
tudo muito rapidinho. Tinha vizinha, às vezes, 
quem me pedia pra ir lá fora até duas vezes por dia.
Ir lá fora era ir ao Largo da Batalha comprar alguma coisa e isso sempre me rendia dez centavos de uma, de outra, 
tinha até quem desse vinte centavos.
Dona Rosa, mãe de Lairzinha, sempre quis me dar dinheiro e eu recusava. Na compra dela eu pedia para caprichar: 
- duas bisnagas bem caprichadas para Dona Rosa 
- era assim que eu pedia e exigia que o pão estivesse no ponto; branco desmaiado não.
Dona Rosa um dia me abraçou e disse : - muito obrigado, Deus que lhe pague. E eu me sentia, de fato, muito recompensado.
Fiquei pensando no tamanho do avião e Lairzinha já estava de volta com uma carinha
bem chateada, e batendo com o pé direito no chão.
- O que foi? - perguntei já sentindo complicação.
Lairzinha desabafou: - fiz papel de boba; 
disse pra mamãe que o avião é do tamanho 
de um morro ao outro e ela perguntou de onde eu tinha
 tirado essa bobagem. Eu disse que foi você que disse e ela falou que não poderia ter sido porque você era um menino inteligente. Aquilo só podia ter saído da minha cabeça ou de outra criança qualquer... Senti-me mal e disse a Lairzinha que ia lá dizer 
que fui eu mesmo que inventei aquela besteira.
- Não vá, não quero que ela pense que você 
é um menino que fala maluquices - disse Lairzinha.
Não fui, mas permaneci querendo esclarecer o assunto.
Quando meu pai chegou contei a ele tudinho e ele disse que eu deveria conversar com Dona
Rosa . Perguntei como eu poderia dizer por que errei tanto no tamanho do avião e meu pai disse para eu contar 
tudo direitinho como contei pra ele.
Já estava de noite e disparei para a casa de Dona Rosa. 
Na porta estava Lairzinha que falou:
- você veio numa disparada, veio fazer o quê?
Nem respondi; olhei para o quarto Dona Rosa não estava, encontrei-a na cozinha.
- Dona Rosa, vim falar do tamanho do avião. 
Tem do tamanho de um automóvel, do tamanho de um ônibus
e até de um caminhão grandão. De um morro ao outro é muito exagero...
- É, eu falei isso pra Lairzinha que fica inventando essas maluquices.. - Lairzinha me olhou com expressão decepcionada, não entendeu onde eu queria chegar,
mas de um fôlego só esclareci tudo. Que fui eu que criei a idéia que o avião era muito grandão e que desenvolvi essa teoria
 porque os adultos sempre disseram que era muito, muito,
muito grande mesmo. E meu pai disse que tem avião
 que só cabem duas pessoas, outros oito 
e os maiores 30 pessoas; somente os de guerra cabem mais de cem, mas não passam aqui no nosso céu, somente
 no céu de onde tem guerra.
Então pra mim avião não é nada grandão, enorme, como os adultos dizem - conclui - .
Dona Rosa deu uma gargalhada gostosa, me abraçou
 bem apertado e disse sorrindo:
- você é um garotinho bem inteligente e prestativo!
Em casa conferi com o meu pai o que 
era ser prestativo e gostei muito .
Era o segundo elogio importante em minha vida
 e eu iria guardar pra sempre.
O primeiro veio do meu pai quando disse 
que eu era o seu braço direito.

evaldodaveiga@yahoo.com.br
Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 17/07/2006
Reeditado em 02/01/2007
Código do texto: T195770

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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
952 textos (313611 leituras)
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Evaldo da Veiga