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No Divã

Dor de garganta, espirros, olhos vermelhos, depressão... é virose. Só pode ser. Preciso parar de fumar, pelo menos fumar menos, o cinzeiro tá cheio, mas nem tô tragando. Tô é deixando queimar.

Meus pais estão na sala, vendo um programa japonês que eu nem faço idéia do que estão falando... aliás, falar hoje em dia é uma coisa que não tenho feito muito, ninguém entende o que eu digo, e não entendo o que dizem. Devia ter me esforçado mais, devia ter aprendido a falar japonês logo, devia ter ido pra outro lugar.

Devia ter feito tantas coisas, como também não devia ter feito muitas coisas. Mas já foi, não volto ao passado, ali só tem uma felicidade camuflada.

Olhar pra frente, planejar o futuro, fazer contas, guardar dinheiro, sonhar, fazer mais contas, guardar mais dinheiro. E trabalhar. Acordar muito cedo, ir dormir muito tarde, descansar muito menos. Aqui não tem finais de semana, nem feriados. Eu não sei que dia da semana é hoje. Só sei que amanhã eu tô de folga, posso acordar tarde, mas preciso sair, cortar o cabelo, e torrar todo o meu salário... pra quê fazer contas? Perda de tempo.

Hoje eu fui chamada de gananciosa. Se vim pra cá, atravessei o mundo pra tentar construir minha vida, é porque tive a oportunidade. Não vou deixar passar. Eu sou nova, mas amanhã não sou mais. Não é ganância. É bom senso.  Meu pai nunca foi rico, nunca foi dono de empresa para que eu pudesse cursar uma faculdade de administração e trabalhar com ele depois. Ele está aqui comigo, está como eu, tentando.

Quem me chamou de gananciosa? Ah... um cara. Dizia ele que tava me esperando, mas como viu que eu não voltava... ele que voltou com uma ex e falou que ia tentar se acertar. Claro que fiquei chateada, mas passou. Eu nunca fui assim, nunca fui de largar tudo por outra pessoa. Acho que falta coragem. E a imagem da minha mãe dizendo "eu te avisei" também não ajuda muito.

Sim, me sinto sozinha. Mas não é solidão. É carência. Carência é um sentimento perigoso, me deixa confusa. E eu sonho demais. Sonho acordada, imagino cenas, devia escrever roteiro pra novela. Só que eu nunca gostei de dramas. Tenho uma amiga que diz que a vida dela é novela mexicana. Tem hora que ela me irrita... sempre se envolvendo com homens incomprometíveis. Existe essa palavra?!

Talvez eu não seja uma boa amiga, talvez eu seja fria demais, talvez eu realmente não tenha paciência. Talvez eu devesse respeitar mais as pessoas, aceitar como elas são e dizer 'eu te amo'. Só que isso não faz parte de mim, não nasceu comigo e não dá pra desenvolver. Não que eu seja uma pessoa vazia e insensível. Tenho sentimentos. E de vez em quando eu choro.

A última vez que eu chorei foi quando eu sofri um assédio no trabalho. De um homem com a mesma idade do meu pai. O que eu fiz? Eu o matei e o enterrei no meu quintal. Pelo menos era o que gostaria de ter feito. Reportei ao meu chefe. O chefe disse que vai mandá-lo embora, só não sabe quando. Não quero falar disso. Deixa pra outra hora.

Só queria que as pessoas que estão ao meu redor e as que não estão, entendessem que no fundo, bem no fundo, eu sou uma pessoa sozinha, tenho um coração bom, adoro crianças (só as espertas), amo animais (cachorro, de preferência), morro de vontade de voltar pro Brasil, quero ver meus amigos e meus parentes (só alguns...), quero ir pra Fortaleza, cantar alto dentro do meu carro, arrumar meu cantinho, e principalmente, ser feliz. Hoje não sou feliz, quem sabe amanhã...

* para quem leu, meu muito obrigada. Este texto é um desabafo. Um abraço, Melissa *

Melissa Y
Enviado por Melissa Y em 17/07/2006
Código do texto: T195804
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Sobre a autora
Melissa Y
Japão, 36 anos
13 textos (823 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 19:43)
Melissa Y