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Cadeia da Vida

        Ontem sonhei; não um sonho qualquer, mas um sonho um tanto quanto inusitado. Sonhei que o mundo em que vivemos se transformou em uma grande selva. As pessoas passaram a ser animais, das mais diversas espécies e dos mais diversos tipos. No começo desse novo modo de vida, a cadeia alimentar é que assegurava a ordem e a hierarquia entre os reinos. Os peixes maiores comiam os menores. Os cavalos, os alces e demais ruminantes se alimentavam da vegetação local. Os pássaros caçavam os insetos; a não ser os urubus que se satisfaziam com os restos deixados por outros animais, como os tigres ou os leões, que se alimentavam dos veados, zebras e outros animais. Enfim, um modo de vida tão selvagem, excitante, surpreendente, que chegava a ser pacato.

        Um dia, porém, os leões se cansaram de caçar, afinal eram os reis da selva. Decidiram, pois, que os outros animais deveriam trabalhar para eles e, em troca, poupariam as vidas desses animais. Entretanto, descobriram que havia outros animais tão ou mais rápidos e fortes que eles, como os tigres, as panteras, os pumas; enfim, animais que poderiam ameaçar a hegemonia leonina. Sendo muito difícil reduzir tais animais à condição de servos, o mais cauteloso, nesta hora, seria fazer uma parceria com esses carnívoros, o que poderia ser muito bom, pois o trabalho seria dividido, os lucros aumentados, e o domínio sobre os outros animais amplamente difundido. Feitas as parcerias, começaram as ameaças. O terror se sobrepôs à paz.  A discórdia e a desconfiança espalharam – se por toda a superfície daquela Terra. Tempos depois, já havia uma grande estrutura de domínio, com os animais mais fracos trabalhando muito para os dominadores. Trabalhando, não possuíam descanso, suas recompensas era a misericórdia e a sorte de continuarem a viver. Também recebiam comida, uma vez que os leões, juntamente com outros felinos de maior destreza, perceberam que tais animais trabalhariam mais e melhor estando suficientemente alimentados. Assim, àqueles animais cujo rendimento de trabalho não era satisfatório, restava a morte, uma vez que os dominadores também necessitavam se alimentar.

        Difundiram seu domínio por toda a Terra. Somente não conseguiram dominar os elefantes e as girafas, porque eram animais demasiadamente grandes. Era uma pena, pensavam os senhores felinos, sendo animais grandes e fortes, dariam ótimos trabalhadores. Não conseguindo controlar tais animais, resolveram acabar com eles. Fez – se a guerra. Concluíram que o modo mais rápido e fácil e exterminá – los seria acabar com suas fontes de alimentos; mas, seria arriscado batalhar, corriam risco de morte. Decidiram mandar os outros animais para a guerra, animais tão inocentes que nem sabiam o que era guerra e muito menos por qual razão haveriam de fazê – la. Sabendo que se não fossem para a guerra morreriam, foram; com medo, com muito medo, fizeram – na; muitos morreram, mas o plano dos felinos funcionara; com todas as fontes de comidas destruídas, os elefantes e as girafas, em pouco tempo, morreram, todos. Enfim, podiam sentir a sensação de serem os reis do mundo, seres supremos que deveriam ser obedecidos a toda hora e a qualquer custo.

        Um dia, porém, se lembraram dos peixes. Também eram animais, mas como colonizá – los? Perceberam que os rios eram muitos e a imensidão do mar, apavorante, distanciava – os do sonho da supremacia terrestre. Somente podiam impor seu domínio sobre a terra, sobre as águas seria impossível! A solução, segundo o chefe supremo dos leoninos, o responsável por toda aquela revolução, desorganização e, sobretudo, aquela forma inimaginável de escravização e horror, seria acabar com o hábitat aquático, ou seja, com a água! Estando a água poluída e imprópria para a sobrevivência, não tardaria começar a mortalidade daqueles animais. Foi um trabalho árduo, difícil, complexo, que exigiu muita organização e habilidade dos senhores supremos, uma vez que eles eram encarregados de organizar todos os grupos de animais inferiores que iriam poluir, o máximo possível, os rios e os mares. Encarregaram – se de tudo; atentaram - se para os mínimos detalhes, desde quais produtos usariam para poluir, até o controle de quais rios e quais porções dos mares já haviam sido poluídas. Começaram por poluir os oceanos, o que era mais difícil. Ao longo de poucos anos, com muito empenho e muita engenhosidade, todo o oceano estava poluído, sem a mínima condição de sobrevivência animal. Pouco tempo depois, começaram as deteriorações nos rios; um trabalho menos complexo, devido ao fato de não serem tão extensos e profundos quanto os mares. Em pouquíssimo tempo, toda a água fluvial estava tão poluída, que seu cheiro fétido espalhara – se por toda a selva.
Já não era há tempo! Enfim haviam conseguindo o pleno domínio da selva e, portanto, de toda a Terra. Gabavam – se por suas vitórias; pelas suas estratégias faraônicas e inconfundíveis. Agora, não mais precisariam preocupar – se em sair á procura de alimentos e jamais teriam a necessidade de trabalhar, havia quem os fizesse e não havia ninguém, poderoso o bastante, para ameaçar todo aquele império felino. O leão chefe, exausto após tanto trabalho, sentiu sede e ordenou, em alto e claro tom de voz: “Servo que estais ao pé dessa árvore, traga – me água!”. O servo, sem hesitar e questionar tal ordem, saiu à procura de água. Muito tempo depois, retornou de mãos vazias ao local aonde se encontravam as feras que, impacientes, logo questionaram o pobre animal: “Por que demorara tanto ser inferior?”. Assustado, o animal justificou – se: “Senhor, não há mais água própria para bebermos. Todos os rios, desde os mais insignificantes até os mais suntuosos estão inteiramente poluídos!”. Lembrando – se agora de seus planos faraônicos, o leão pôs – se a repousar, pois logo a sede passaria. Repousou. A sede passou; e assim foram – se alguns dias, até que chegou o dia que os reis da selva souberam de casos de morte. Seus súditos, ou melhor, seus servos, estavam a falecer devido à fraqueza de seus corpos. Aos poucos, milhares e milhares de animais grandes, pequenos, ágeis, lentos, faleceram, enquanto esgotavam – se as fontes de comida. Indignados, os felinos perguntavam – se qual o motivo de tal mortandade, até que se deram conta que há vários dias não colocavam uma gota sequer de água em suas bocas e, de tão fraco que estavam, não possuíam forças para sair à procura de alimento e água. Perceberam que não podiam viver sem água. Deram – se conta, então, que a sua ganância, sua sede pelo poder, haviam terminado naquele momento; que não seria mais possível o exercício do poder; que a vida já não poderia mais ser sustentada. Morreram todos, não restou nenhuma ínfima alma em toda a face da Terra. A selva acabara – se; a vida também.

        Acordado do sonho, percebi que os leões estão à solta, juntamente com muitos outros felinos; carnificinas insaciáveis que haverão de dominar – nos, se é que já não o fizeram. E, não percebendo que acabando conosco estão acabando consigo mesmos, afundarão no turbilhão da incerteza; acabarão por exterminar – se uns ao outros; todas as suas ações, de domínio, de conquistas de povos e de territórios, levarão – lhes ao fim dos dias, onde não mais amanhecerá.

        Se os homens fossem leões, haveria a paz e a cadeia da vida seria seguida respeitosamente; porém, se os leões fossem homens, haveria um princípio de civilização, e logo em seguida, a discórdia se espalharia por todos os lugares possíveis; seria inútil qualquer tentativa de diálogo, o caos se sobreporia sobre a segurança; a civilização atingiria o auge da ignorância, não hesitando em prosseguir para o fim absoluto de tudo.
brunão
Enviado por brunão em 20/07/2006
Código do texto: T198259
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Sobre o autor
brunão
Aguaí - São Paulo - Brasil
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