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LINGUA SOLTA

Minha tia Henriqueta é assim: tem a lingua comprida, pra mais de metro! Quando vem da roça, lá daqueles confins do mundo, chega dizendo cobras e largatos da viagem. Que foi uma bosta, que não conseguiu pregar o olho um segundo naquela lata velha. O motorista, uma lesma, o companheiro de viagem, uma múmia, o trocador, uma anta... droga de viagem, rugia ela. Não passava da sala de visitas. Mal arriava as malas, desmoronava sobre o sofá e começava a desfiar aquele rosário sem fim de suas ladaínhas sobre o povo da roça para a minha mãe que era toda ouvidos.

_ Sabe quem fechou o paletó?
_ Não, quem foi?
_ O Alfredo?
_ Como assim? Da última vez que pus os olhos em cima dele, estava vendendó saúde!
_ Pois é, vendeu tudo, virou presunto!
_ Meu Deus, como foi isso? Assim, sem quê-nem-pra-quê?
_ Dizem que ele entrou numa bitaca, encheu os chifres e quando já tava pra lá de Bagdá, dependurou os olhos numa sirigaita que estava em companhia de um milico. Aí, ele puxou o três oitão, e enfiou três ameixas  no bebedor de lavagem dele.
_ Nossa mãe, e a viúva?
_ Quando deram a boa nova, abriu a boca. Lágrimas de crocodilo...Pegou uma gorda pensão e enquando o Alfredo ainda se dava às moscas, ela se juntou com um pé-rapado que deu as fuças por lá e foi tomar outros ares sabe-se lá em que outra freguesia.
_ E o tio Osvaldo, como tem andado?
_ Deitado! Já não diz coisa com coisa. Já não vai na casinha, bate o barro e tira  água do joelho, ali mesmo na cama. Aquele tá de viagem marcada pro além. Só falta carimbar a passagem. Como ele não tem um tostão furado, coitada da Geralda, vai continuar vendo o sol pela greta.
_ E o casamento da Manoela?
_ Ah, muito mixuruca! Na Igreja tinha uns gatos pingados, na festa, uma meia dúzia de mortos de fome que só foi lá para entupir o bucho.
_ Meu Deus, coitada Manoela!
_ Coitada nada. Era isso que sô sapo queria. A Manoela estava de olho era em outra festa.
_ Henriqueta...
_ É mesmo! Aquilo é fogo puro! Mas fui falar em fome, me lembrei que estou mortinha da silva de tanta vontade. Não belisquei nada desde que saí de casa. Sou capaz de comer um boi.
_ Boi, a gente não tem,  Henriqueta. Você chegou assim de bate e pronto e pegou a gente com as claças nas mãos, mas vou preparar um trem pra você.

silasol
Enviado por silasol em 23/07/2006
Reeditado em 28/07/2006
Código do texto: T199932

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Sobre o autor
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Sabará - Minas Gerais - Brasil, 65 anos
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