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Casos de Família I

Eu, no fundo da minha ingenuidade cretina, sempre acreditei que se um dia tem que ser “daqueles”, ele já começa a dar errado logo pela manhã.

E hoje, um domingo cheio de sol e preguiça, que tinha tudo pra ser feito de frases em tom baixo, televisão e cobertor, antes de badalar às 19 horas o céu cai sobre minha cabeça.
Desmorona assim, sutilmente, em vários pontos, como se o Universo quisesse deixar claro que eu não sou imune a nada.

O estopim é a sagrada ligação dominical feita aos meus genitores, a voz de papai é seca – coisa mais que normal para um italiano típico, mas nada normal quando a fala é para mim. Mamãe está com voz de choro, aquele choro morno e sem razão, indicando mais uma bela “tempestade” em seu cálice de licor.

E eu, infeliz como sempre, não sei se por obrigação ou educação – e deixe-se claro, são coisas inteiramente distintas – ainda questiono o por quê. Como esperado, ouço o que não quero e digo o que não devo.

A ligação se finda em frases desnecessárias e grosseiras, respiro fundo e repito que não estou aqui para resolver todos os problemas do mundo, porém, antes que termine mentalmente de dizer que quero mesmo é que “o circo desse povo pegue fogo e o bombeiro esteja em férias”, minha consciência toma um lugar que não é dela, e antes que eu possa impedir meus dedos discam o telefone de minha irmã.

Pergunto algumas coisas, conto outras e tento – em vão – achar uma solução que não existe para problemas que existem, mas para os quais nem foi requisitada solução de minha parte. E é nesse momento, que o temido acontece, e me jogam outras lides às costas, estas por sua vez, requerem e urgem por resoluções vindas de minha boca.

Ouço uma a uma. Os seios de minha sobrinha estão crescendo e lá vou eu encarnar a ginecologista – o que meus conceitos jurídicos em nada ajudam – e tentar explicar para a pequena que a diferença no crescimento das glândulas mamárias é mais que normal e, como se não fosse o bastante, tenho que confidenciar que meu seio direito é sutilmente maior que o esquerdo... Problema resolvido, a menina sai feliz do telefone querendo comprar sutiã.

Achando eu que poderei desligar e tentar impedir que minha conta telefônica se estoure pelo terceiro mês consecutivo, sou surpreendida com outra confissão familiar:

“Seu cunhado é um grosso!”.

Tudo bem, sei que meu cunhado não é um poço de sutileza, mas minha irmã que – igualmente a meu pai e também a mim – tem uma leveza na língua como se escovasse-a com pasta dental a base de ferro reclamar do coitado é demais.

Vou vasculhando a situação e ouvindo suas alegações, no final das contas, percebo que tudo não passa de dezoito anos de relacionamento e pouca conversa, mas antes que possa dizer a ela que um pouco de paciência e palavras pronunciadas em altura suficiente para ser ouvido apenas em um cômodo da casa, bastam para resolver coisas assim, meu irmão postiço adentra a linha, e pela extensão telefônica tenta me contar sua versão dos fatos.

Enlouqueço? Não, quem sou eu para ter tal direito? Acendo o terceiro cigarro dos últimos quinze minutos e visto a paciência do mundo.
Depois de ele abandonar a linha, largo aos ouvidos de minha irmã uma frase sutil:

“Sabe o que falta a vocês? Uma boa noitada em um motel!”.

Não que tenha usado exatamente tais palavras, mas não sou de baixar tanto o nível em meus textos.

Ela por sua vez concorda, e coloca toda a culpa na falta de tempo, na filha que exige atenção constante e no cometa Haley, entre outras coisas assim. Eu que não posso brigar ou obrigar tais coisas, contenho-me.

Deixo sair mais três ou quatro conselhos, e quando parece ela estar satisfeita dizendo que vai fazer as pazes com o seu marido, é o celular do meu que toca, atende-o, desliga, e me diz que é caso de mais uma reunião fora de hora da campanha.

Com minha irmã a conversa termina em “obrigada, ótima semana e te amo”.

Enfim, todos os problemas semi-resolvidos e eu aqui esperando pelo colo que deveria estar fornecendo meu cafuné dominical.

Acaba soando engraçado como mesmo com os quinhentos e tantos quilômetros que separam meus ouvidos de minha família, a solução para tudo, como em todas as outras épocas sai de minha boca. Malditos meios de comunicação? Não... Benditos elos.
Kari Capraro
Enviado por Kari Capraro em 23/07/2006
Código do texto: T200359
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Sobre a autora
Kari Capraro
Ponta Grossa - Paraná - Brasil
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