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COISAS DO CORAÇÃO


            A imagem daquele homem, esparramado no sofá do consultório, permaneceu fixado em minha memória por mais de vinte anos. Mão enxugando a testa calva, olhos voltados para o teto, abúlico, como uma ave na “Síndrome do Ninho Vazio”, quando os filhotes crescem e se vão, deixando-a na solidão.
Foi direto ao assunto: “Dr, as piores coisas de se resolver são as do coração”. Após 10 anos de convívio com Julieta, resolveu casar, continuou. “Recebíamos amigos em casa e ela organizava os quitutes, a cerveja geladinha, botava a música para funcionar e brincávamos até o galo cantar. Pois não é que com três meses a mulher mudou da água para o vinho? De aliança na mão esquerda, disse-me que fazia tudo aquilo porque era minha rapariga. Agora, eu que arranjasse a serventia e tanto encrencou que se foi, arranjou um advogado que bebericava com a gente e estou aqui quase na miséria”. Daí a terapia continuou e pouco vem ao caso. O importante é que a frase inicial permanece viva, repetitiva, estereotipada, real.
A afetividade, sentimentos e emoções, inclinações e paixões pertencem ao terreno do inexplicável e caem no campo do compreensível, como queria o psicólogo alemão Wilhelm Dilthey, um dos expoentes da fenomenologia. A explicação fica com o lobo pré-frontal, para a lógica, para a causa e efeito, para a teoria de Newton. A compreensão fica para aquilo que não se pode explicar. Só posso compreender algo em sua totalidade quando passo por situação assemelhada ou vivência aproximada. As “Coisas do coração” podem ser compreensíveis, nunca explicadas.
Nas coisas do coração, inexiste o princípio da ação e da reação. Para os sentimentos e emoções, inclinações e paixões, toda ação corresponde a uma situação. Como explicar o grande Napoleão Bonaparte dominasse seus soldados e sucumbisse às lágrimas de Josefina ou ao fogo de seus beijos, como ao encerrar aquela carta de 29 de dezembro de  1975:” Três horas depois do meio dia estarei com você. Até lá milhares de beijos, mio dolce amore, mas não me dê nenhum, pois seus beijos põem fogo em meu sangue”.
Muito difícil explicar os mistérios do coração. Digam o que quiserem, se puderem, da paixão de Ema Hamilton por Lorde Nelson, o Almirante Nelson, inglês, da Batalha de Trafalgar, na qual faleceu.  Como explicar o amor e o sexo do Duque de Windsor, ao abdicar ao trono da Inglaterra, pela paixão por uma plebéia? E Balzac em seu romance “A Mulher de Trinta Anos” espalhando enorme atração por senhoras balzaqueanas?
Que o coração tem razões que a própria razão desconhece, já o sabemos desde Descartes. O que não explicamos é o fato deste Pai da Filosofia Moderna, o cientista e filósofo da moderna lógica, da dúvida metódica sentir tanta atração por mulheres estrábicas ao ponto de só com elas ter intimidades.
As paixões são tão complexas, ao ponto do saudoso Professor Nobre de Melo, defini-la como um estado tiranizante, monopolizador do campo da consciência, a tal fervor de não deixar espaço para mais nada que lhe vá de encontro.O apaixonado não admite o contraditório. Não há dúvida nas expressões: “Encontrei o Homem da minha vida” ou “Alguém que sempre imaginei”, ou ainda, “Enfim a minha cara  metade”.A paixão, dizia  Nelson Rodrigues: “Está bem próxima do gozo e da morte” , como escrevia em sua perfeição obsessiva.
Nas coisas do coração, há a busca incessante e as vezes desesperada do perdido, do dividido, na tentativa deliróide para se ser um só corpo e uma só alma. Até as secreções genitais dos apaixonados transpiram o néctar dos deuses. E só quem sentiu o frio da desgraça de quem foi abandonado, no instante da maior ilusão, compreenderá  os olhos tristes, os ombros caídos e as mãos vazias de Antônio, naquele sofá, após a perda de sua Julieta.



Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 27/07/2006
Código do texto: T203118
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais