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Crônicas da Esquina

 SÁBADO

Descendo a ladeira, surge o homem: tênis, bermuda, camiseta temática e  boné. É Sábado em Vila Isabel, dia consagrado ao ócio e a seus deuses. Entre a Gama Lobo e a Torres Homem a ladeira não é íngreme, mas, como diz o ditado, os santos não se furtam ao auxílio. E ele desce sem que a gravidade lhe avilte a pose. Sorridente, cumprimenta a todos e, deslizante, segue rumo à caminhada matinal. Quanto a mim, não sei para onde vai, mas gosto de imaginá-lo circundando o Maracanã entre apressado e contido, enquanto observa, satisfeito, a silhueta de moças coloridas que passam montadas em suas bicicletas. Essas amazonas do alfalto desenham-lhe nas retinas o desejo de pedalar com elas. Ao imprimirem velocidade, erguem seus rígidos glúteos que despertam em nosso simpático Apolo antigas saudades. Não creio que lamente a inexorabilidade do tempo que lhe sulca o rosto com módicas rugas e alguns cabelos brancos. Mas, ah, essas ninfetas do betume!
Ele caminha e deixa que a imaginação lhe aumente o prazer pelo dia que passa. Afinal não são apenas as meninas que desfrutam as delícias de uma caminhada e que cumprem os conselhos de Hipócrates. Não. São gentes de todas as cores, idades e formatos que, como ele, modelam a forma e revigoram a saúde.
Talvez ele apreciasse a companhia de amigos ou epígonos. Como peripatéticos atenienses discorreriam sobre questões atualíssimas.
De minha cidadela não poderia saber quantas voltas nosso amigo completa. Seja como for, o suor já lhe marca a camiseta e o boné. Certamente não deixará de parar junto a uma improvisada barraca de coco gelado. Um simples real lhe dará acesso a essa drupa de albúmen lactescente que lhe hidratará e lhe trará calma. Deixa-se ali, bebericando enquanto os olhos ainda vasculham a paisagem que fora a final da Copa de 50 vencida pelos uruguaios. A infância brinca nos seus olhos.
Refeito, retorna. Chega e se achega. Escolhe a mesa e inteira-se do assunto em questão. Ele ri e tece comentários em tons simpáticos e irônicos. Entra na conversa, pede um copo e tira o boné. Uma brisa lhe acha e, aí, cabelos ( poucos ) ao léu.

                                                                                     Aldo Guerra
                                                                                    Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 28/07/2006
Reeditado em 28/07/2006
Código do texto: T203848
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
296 textos (26100 leituras)
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Aldo Guerra