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Para as lembranças de viagens

(TEMPORADAS DE LÁ E DAQUI, COMIGO E SOZINHO, COM OUTROS E COM AMIGOS E TAMBÉM EM LUGARES DESCONHECIDOS).


Estávamos ali. Todos meio juntos e meio afastados, como é a nossa atitude com o mundo. Fico lembrando o momento que sinto que não é perfeito, mas é tão gostoso, não é perfeito, mas dá tanto para ficar bom demais: decido esquecer as imperfeições, é assim e pronto, não importa o mais fundo  se eu posso acreditar que o mais fundo é esta aparência.

Nessas horas quero louvar deuses, gritar a Iemanjá, Oxum, sei lá: tem tanta magia em viver, tem tanto em viver para acreditar.  Não quero nunca esquecer que se não é bom dá para ser bom.
Estranho o de mim que se afasta e se fecha pra longe do mundo, não queria ser assim, quero o mais tranqüilo, Laurinha, cachoeiras.

Hoje está fazendo um sol bonito, estou com uma cara boa, até o cabelo brilha, tem mais uns dias de férias, sinto-me tão capaz de dizer: isso é bom, quero e gosto disso. Para sempre esse instante do céu ao sol se pôr: dourado azul cinza rosa.

Dura tão pouco.
Só as vezes que acontece de ter os olhos fechados dizendo que seja doce.*

Acho que viver é ser.
Eu sou uma coisa da qual não gosto muito,
não é de mim a espontaneidade, a alegria, a extroversão ou a exposição. Sou meio bicho mesmo, meu mundo é o de dentro, se às vezes explodo ou surto talvez seja até por isso, de acumular muito e de ser só e sempre muito (ainda por querer mesmo que achando que não!), mas é exceção - as explosões - não regra. Demorei a admitir: sou mais casa e sofá que balada e bebida, que galera e seqüências, calmarias, companhias, afazeres. Mas sim, tem os dias que eu quero bebida balada loucura doidera cachoeira música metal.

Não é fácil gostar de mim, imagino que leve um tempo, que exija a paciência necessária para a abertura. E o mais interessante é que às vezes talvez não: eu tenho essa coisa ruim chamada Inconstância. Não é fácil me querer: tem tantos dias que eu não quero e não me quero também. Não quero nada, antes ainda de ninguém.

Não é que me orgulhe disso: é apenas que vou percebendo cada vez mais.
Tem algo novo e mais intenso que parece ser consciência. Ou sei lá. Outro nome. Duvido muito dos nomes ultimamente, ponho-me a pensar sobre eles: de onde vieram e por que e como e o que foi que aconteceu e porque a gente não pensa e não questiona e não muda e porque é que não se fez diferente, mais fácil, mais gostoso. Por que tenho que me submeter a isso? Pareço boneco, pareço de corda, pareço de pilha, parece tudo farsa: até meus olhos.

Meus pontos de vista seguem aforismos. De repente acho que sou de extremos (mau humor ou bom humor), mas lembro que várias vezes subo no muro e fico sentada, tudo depende, nada é bem assim e as sentençazinhas meio verdadeiras se contradizem, sobrepõe, transformam, adaptam. Acho que sou maleável. Sei também que às vezes eu bato de cabeça em pedras e paredes até sangrar muito.

Está chovendo, minha franja gruda na testa, estou bonita mas me sinto indisposta, o olho fica embaçando, estou com olheiras, perguntam o que que há, dizem que estou séria, prefiro então ficar sozinha, fecho-me ao quarto amaldiçoando o jeito das coisas, penso nas cachoeiras e nas baladas e nas bebidas mas fico só com a loucura, mesmo tão fraca para assim sozinha ser louca mesmo de verdade.

* “... que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada”.
(Caio Fernando Abreu, do conto Os Dragões não Conhecem o Paraíso.).

Anna P
Enviado por Anna P em 29/07/2006
Código do texto: T204339
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Sobre a autora
Anna P
Curitiba - Paraná - Brasil
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