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O canto da sereia

Contam as lendas antigas que os marinheiros que escutavam o canto das sereias ficavam enfeitiçados pela maravilhosa melodia e terminavam perdendo os seus rumos e até colidindo os seus navios contra as ilhas onde moravam estas adoráveis criaturas. Estes belos seres, metade mulher e metade peixe, causavam as desgraças de tantos, que afundavam as suas embarcações e morriam nas armadilhas escondidas por trás daquele enfeitiçante canto. Verdadeiras ou não, as histórias das sereias aterrorizavam muitos homens do mar, que procuravam desviar das rotas onde, segundo as lendas, moravam as sereias.
No meio do oceano não deve ser difícil desviar de uma ilha onde tememos nos defrontar com perigos desconhecidos. Basta remar para outro lado, mudar a posição das velas ou, simplesmente, virar a roda do leme para outra direção. Acontece, porém, que ninguém consegue desviar do “canto da sereia moderno” dos nossos dias: a publicidade. E, por causa disso, tantas vidas naufragam no mar profundo do consumismo desenfreado. São poucas as pessoas que escapam dos apelos publicitários que invadem nossos olhos e nossos ouvidos desde o nascer do dia até o momento em que vamos dormir para refazer as energias. Antigamente, nossos filhos e netos rezavam: “Com Deus me deito e com Deus me levanto...”. Hoje a oração é outra: “Com a publicidade me deito e com a publicidade me levanto...”. A publicidade – sereia moderna – canta e encanta com suas “melodias” que prometem fama, beleza, riqueza e tantas outras “maravilhas” que todos nós sonhamos sempre conquistar.
As antigas sereias seduziam homens feitos e experimentados. A “sereias” atuais enfeitiçam seres humanos de todas as idades, desde o bebê que está apenas começando a caminhar e falar até o ancião que vegeta numa cama ou cadeiras de rodas. “Compre o talco tal, que perfuma melhor o seu bebê”; “Só o sabonete xis deixa a pele macia e sedosa”; “O melhor celular do mundo tira fotos, acessa a internet e ainda toca as suas músicas preferidas”; “Empréstimos para aposentados: basta apresentar a carteira de identidade e já sai com o dinheiro na mão”; “Crédito fácil para você comprar o que quiser...”. E por aí se vão os cantos das “sereias” que invadem as nossas vidas e nos fazem perder os rumos traçados pelo nosso orçamento pessoal.
Quem precisa de um talco que perfume melhor? Quem garante que o sabonete aquele deixa a pele sedosa? Celular é para promover a comunicação ou para servir de máquina fotográfica? E será que a maioria dos empréstimos concedidos para os aposentados servem para melhorar as suas vidas ou apenas para livrar parentes espertos de dívidas que os próprios aposentados terão que pagar com o sacrifício do desconto em folha? Não é nada fácil escapar deste “canto das sereias” moderno. Compramos o que não precisamos. Gastamos fácil o dinheiro que ganhamos com tanta dificuldade. Afundamos em contas e prestações que só conseguiremos pagar através de novos empréstimos e de mais dívidas. Afundamos o nosso barco no seco, sem possibilidade de jogar qualquer âncora que possibilite a nossa salvação. O verbo “gastar” já está gasto de tanto ser usado nos dias atuais. E o pior é que, depois dele, teremos que conjugar o verbo “pagar”, bem mais difícil de ser conjugado no tempo certo...


Milton Souza
Enviado por Milton Souza em 02/08/2006
Código do texto: T207728
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Sobre o autor
Milton Souza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
67 textos (5902 leituras)
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Milton Souza