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 Lairzinha me esperando "




Era o meu segundo dia de aula e que estava terminando.
Eu olhava para a Professora Maria Yvone e queria
continuar olhando, ela era um imã irresistível.
Ás vezes usava o mesmo recurso que Lairzinha usou quando queria fingir que não vê via: eu colocava a mão sobre os olhos,
 mas deixava os dedinhos médio e indicador entreabertos
 para ver o rosto da Professora. Quando ela ia ao quadro negro escrever, deliciava-me vendo suas pernas, seus cabelos caídos nas costas e a marca do soutien que guardava os tentadores seios.
Mas já que aula terminou mesmo, meu ânimo todo era ver Lairzinha, que por certo me esperava no portão.
Fui rápido, correndo, quando faltavam uns cem metros, na descida da lombada, vi Lairzinha iluminando a vida.
Chegando perto vi o cabelo da Lairzinha bem penteado e ela com cheirinho de sabonete “Palmolive” (o sabonete de nove entre dez estrelas, dizia a propaganda do rádio). Lairzinha só tomava banho no início da noite, quando terminava as brincadeiras de correr, escambida, pega ladrão e aposta de quem chega primeiro. Perguntei por que
 tomara banho e ela disse: - pra te esperar bem bonita, você ficar bem alegre de me ver.
Nunca tinha me ocorrido que Lairzinha pudesse ficar ainda mais linda, mas gostei da idéia, o cheirinho de sabonete era bem maneiro.
Lairzinha ficou me olhando com aqueles olhos clarinhos que pareciam lindas bolas de gude, novinhas, que não foram usadas.
Olhava-me com aquele olhar que eu já conhecia, aquele olhar de quem perguntava, de quem queria saber de coisas... Como fingi não saber o que ela queria saber, ela perguntou: - o que você aprendeu hoje? – Dessa vez não me pegou desprevenido e eu respondi: - não olhei pra Professora não, só pra o caderno e pro quadro negro. – Muito triste mentir e logo pra Lairzinha. Mas se eu contasse a verdade ela ia ficar triste e brigada, e eu nunca mais queria ficar brigado e longe da Lairzinha.
Entramos na minha casa e fomos logo pra mesa ver os cadernos.
Minha mãe estava passando roupa e eu afastei um pouco o cobertor
 e o lençol que forravam a mesa, pra por meus cadernos,
 mas minha mãe cortou: - vai tirando o cavalinho da chuva, aqui não. Esse negócio de estudar é idéia do teu pai, ele que dê um jeito.
Fiquei chateado, mas Lairzinha tinha solução: - vamos lá pra casa, mamãe vai gostar, e ai ela ver que você é o meu Professor...
Professor? Encantou-me a idéia. Dali para frente tudo que eu aprendesse ia ensinar pra Lairzinha, mais um ideal na vida. Fomos correndo eu já tinha uma pasta que meu pai trouxera no dia anterior,
 à noite. Corria com ela segura com as duas mãos e protegida por meu peito. Não segurava pela alça, tinha medo que ela sumisse, por desencanto. Tinha Lairzinha, vieram os cadernos, depois a pasta, e hoje eu trouxe anotado com a letra da Professora o nome do meu primeiro livro, a vida me contemplava os melhores presentes.
Dona Rosa recebeu-me com um abraço e disse: - que lindo você de pasta, meu rico filho.
“Meu Rico Filho”, nunca mais esqueci esta frase, foi o terceiro elogio lindo que recebi e eles influenciaram muito à minha vida. Através deles me sentia gente de verdade. Lairzinha também gostou do “Meu Rico Filho”, olhou-me com aquele sorriso lindo de ternura e falou: 
- tá vendo, você é o menino mais importante do mundo. 

evaldodaveiga@yahoo.com.br






Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 03/08/2006
Reeditado em 27/05/2011
Código do texto: T208169

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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
952 textos (313617 leituras)
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Evaldo da Veiga