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Uma chama acesa

        Com o rosto tomado pela tristeza, uma mulher esperava por clientes com um copo de cachaça na mão. No boteco ao lado, um bêbado discutia sobre os dez centavos de uma dose de aguardente. Um garoto dormia na porta de uma loja e uma senhora pedia esmolas com uma receita médica na mão. Dentro dos ônibus circulares que estacionavam na abandonada rodoviária de Campo Grande, homens e mulheres exaustos com a jornada de trabalho se amontoavam no aperto desumano do coletivo.
Há poucos metros dali, enquanto Zeca do PT e Lula, desfrutavam o luxo dos palácios imperiais da China (com mais quatrocentos empresários), três revoltosos que ainda resistiam diante da lama podre de Brasília, iniciavam um motim numa escola campo-grandense desenhada por Oscar Niemeyer.
Sete da noite, bate o sino no colégio estadual Maria Constança de Barros, noite fria de sexta-feira. Casais de namoradinhos se beijavam pelos bancos, um grupinho decidia se matava a aula de matemática e o inspetor chamava o restante dos alunos que ainda estavam no pátio.
Muitos jovens nunca tinham ouvido falar da senadora Heloísa Helena (AL), e dos deputados federais Babá (PA) e Luciana Genro (RS), expulsos do Partido dos Trabalhadores por defenderem a igualdade entre as classes, o fim da pobreza e também por denunciarem os deslumbres do PT no poder.
Quem sabe mais para frente, eles possam ter um conhecimento mais sólido de que estudaram onde nasceu no dia 28 de maio de 2004, a base para a construção de um novo partido revolucionário de esquerda democrática:
P-sol.
Heloísa Helena é o nome, guerreira retirante da seca nordestina, brava militante que enfrentou não só os coronéis da ditadura militar, mas também os coronéis da atual didatura do dinheiro, foi torturada, marcada na alma, espancada e puxada pelos cabelos pela tropa de choque de Lula quando defendia os direitos dos trabalhadores. Em todos os lugares do país por onde passavam, os milhões de brasileiros que combatem diariamente nessa guerra pela sobrevivência puderam sentir que o coração mesmo estando ferido, ainda bombeava os pulsos de uma revolta.
Após os discursos de Heloísa, Babá e Luciana, fiquei sentado sozinho por vários minutos no auditório quase vazio do colégio Maria Constança. E depois de um tempo anestesiado na cadeira, percebi que os  parlamentares ainda estavam na escola e decidi ficar observando um pouco mais. A senadora ajudava um funcionário público federal do comando de greve sul-mato-grossense a dobrar uma faixa vermelha que estava no chão. Babá discutia reforma universitária com uma jovem estudante, enquanto Luciana ouvia as reclamações de alguns trabalhadores.
Quando eu já estava na porta da escola, vi o deputado João Fontes (que nessa época estava no P-sol) sozinho esperando a pessoa que ia levá-lo para o hotel. Começamos a conversar quando o motorista chegou com tanta pressa, que quando eu percebi, estava junto no carro indo para um boteco de sinuca em frente da Santa Casa, onde se reuniam antigos militantes da esquerda campo-grandense.  Durante o percurso, passei o tempo todo calado ainda sem entender o que estava acontecendo. O motorista estava pensando que eu conhecia o deputado, e João Fontes pensava que era eu quem conhecia o motorista, por isso; fiquei mais quieto ainda.
Descemos na rua Treze de Maio, João e eu fomos caminhando até o bilhar quando vimos os carros onde estavam Babá e Heloísa Helena, que olhou para mim como se eu fosse um velho amigo e disse:

_Você sabia que esse é o primeiro lugar que nós passamos, e que ainda não apareceu ninguém falando que foi namorada de João.

Depois da gargalhadas gerais respondi:

_Deve ser porque Campo Grande é muito longe de Aracajú.
_ Ah... então você ainda não conhece João, retrucou a senadora, rindo junto com Babá.

Entramos no botequim onde alguns homens jogavam sinuca e tomavam cerveja. Dois senhores bebiam pinga numa mesa e o ambiente continuava com a mesma órbita de simplicidade, mesmo com a presença de uma senadora e dois deputados. Acredito que nem mesmo um vereador(zinho) de Campo Grande seja capaz de fazer coisa igual, pois a maioria prefere as salas encarpetadas de palácios do que ter um contato direto com o povo.
O dono do bar pareceu meio atônito com a inesperada visita, mas se tranqüilizou ao perceber que os parlamentares estavam mais à vontade do que os freqüentadores mais assíduos de seu bilhar. Babá conversava em uma mesa com uma negra das Furnas de Dionísio, uma vila fundada por descendentes de escravos  em Mato Grosso do Sul, e ao seu lado, estava João, fazendo perguntas sobre a cidade para algumas pessoas na porta do bar. Heloísa Helena estava dentro da cozinha do botequim com um prato de sopa de milho nas mãos.
Um homem levemente embriagado que estava com uns amigos, pegou uma viola e começou a tocar Chalana, de Mário Zan. Heloísa pegou o telefone e me disse:

_Vou ligar para uma amiga minha em Alagoas que ama essa música. Ela até chora quando ouve Chalana, comentou a senadora, entre uma colherada e outra da sopa.

 E antes que os detalhes me começassem a fugir, peguei um caderno, um lápis, e comecei a escrever sob uma mesa de sinuca. O violeiro continuava aquele pode ter sido seu mais ilustre show, Heloísa conversava com umas mulheres, Babá falava sobre os podres do PT com um antigo militante, e Fontes já estava no segundo prato de sopa quando chamou a atenção de todos com um comentário:

_Vocês viram o Lula chorando no enterro de Roberto Marinho? Com aquele bico de tucano, o rabo de porco do PFL com asas de urubu malufistas, parecia um transgênico dizendo que havia perdido um amigo. E olhe que eu nem sabia que eles eram amigos!
 
Os três estavam completamente incorporados ao ambiente. O clima era de amizade e confraternização. E eles nem precisavam de muito esforço para isso, a simplicidade e a proximidade com o povo ainda resistiam, e só restava uma vontade: a de uma revolução que colocasse “os meninos e o povo no poder”, como cantou os poetas Milton e Brant.
João e Babá me pediram para ir a outro lugar. Decidimos ir à feira central. E antes de chegarmos lá, Heloísa que queria ir para o hotel, pegou meu livro “O Processo”, que estava segurando e escreveu: “Ao querido Danilo, não tenha medo de ser socialista. Beijos. Heloísa Helena”. Deu-me um forte abraço e entrou no carro. Ainda fiquei com aquela despedida na cabeça quando Fontes, Babá e eu entramos na feira. Logo na entrada, vi um jornalista da Globo que não reconheceu nenhum dos parlamentares, ele estava ocupado com um papinho aranha pra cima de umas garotas, todas estudantes de jornalismo.
Nos sentamos na barraca de um japonês chamado Taira, e João disse para que falasse um pouco de mim. Depois de contar sobre minhas experiências como operário durante três anos no Japão, e sobre o movimento sócio-cultural “Levante” que estávamos fundando, também conversamos um pouco sobre o filme “Amarelo Manga” de Cláudio Assis. E eles me falaram de Frei Betto, e de tantos outros companheiros que não resistiram à ilusão do poder e acabaram entregando a “rapadura”.
Contaram-me também, sobre o dia em que João entregou aquela fita em que Lula chamava Sarney de ladrão ao jornalista da Folha de São Paulo, Fernando Rodrigues. Episódio que apressou o processo de expulsão deles do partido. Eu lhes falei que nesse dia, teve festa na redação do jornal laboratório da faculdade, pois aquela fita foi muito importante para os petistas se lembrarem de quem eles eram, e o que defendiam.
Depois de ter passado por vinte e três Estados (Mato Grosso do Sul foi o vigésimo quarto), os parlamentares ainda iam passar por Mato Grosso, Amapá e Tocantins, completando os 27 estados brasilerios. E tudo isso sem o apoio da imprensa, de empresários e, muito menos, da máquina do estado.

 “De novo, o passo dos mendigos fará tremer a terra”.
 
Danilo Nuha
Enviado por Danilo Nuha em 04/08/2006
Reeditado em 09/08/2006
Código do texto: T208745
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Sobre o autor
Danilo Nuha
Japão, 38 anos
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Danilo Nuha