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AS CANTIGAS DE RODA... E AS DESGRAÇAS

Eu sei que peguei um pouco pesado no título. Na verdade ele foi totalmente inspirado no nome de uma comunidade orkutiana: Cantigas de roda SÃO desgraças.

Faz quase 1 ano que eu rabisquei no meu caderno uma porção de cantigas de roda a fim de apontar, em um texto, como essas musiquinhas aparentemente inocentes carregam em si altas doses de sadismo e inconseqüência. Só que aí começaram a aparecer comediantes de stand up comedies fazendo isso de um modo bem mais interessante e a pipocar várias comunidades sobre o assunto, e acabei engavetando os rabiscos. Além, do que, não é de hoje que se nota como eram maldosas as músicas de roda de antigamente, obviamente que essa descoberta não é mérito meu.

Lembrei-me disso de novo porque por esses dias um bando de meninas daqui do prédio estava brincando de pular corda (da Coca-Cola, claro), no jardim bem embaixo da janela da sala. E não consegui ignorar a cena porque eu sempre imaginei que crianças paulistanas que vivem em prédios só se entretivessem com os Wii ou X-Box da vida, e que exercitassem só os dedos nos consoles. Ainda bem que eu estava errada. Parei por alguns minutos para ouvir as musiquinhas e elas não mudaram! Essa que as meninas estavam cantando era a mesma que eu ouvia muito nos recreios do Hilmar Machado: “Um homem bateu à minha porta, e eu abri...”. Mas que falta de noção do perigo. Nossos pais sempre nos alertaram para não darmos confiança a gente estranha e essa música vem dizer que uma criança abriu a porta para um homem não identificado.

Um dos maiores clássicos das cantigas de roda detona com as aulas de biologia: “... roda, roda, roda, caranguejo peixe é! /Caranguejo não é peixe / Caranguejo peixe é / Caranguejo é só peixe na enchente da maré”. Por favor! Querem que as crianças acreditem que peixe, molusco, cetáceo e crustáceo é tudo a mesma coisa? Ainda no campo das ciências, tínhamos uma cantiga um tanto visionária, que já abordava a modificação genética das espécies vegetais: “Da abóbora faz melão / Do melão faz melancia / Faz doce, sinhá / Faz doce, sinhá Maria”.

Mas se tem um clássico que me revolta é Atirei o pau no gato. Costumeiramente a maioria das pessoas (infelizes) não gosta de gatos, mas incitar uma criança a judiar dos bichanos é covardia: “Atirei o pau no gato MAS o gato não morreu...” – ou seja, ele atirou para matar – “...dona Chica admirou-se com o berro que o gato deu” – o que significa que essa dona Chica era uma omissa porque não socorreu o gato, e uma cínica fingindo admiração por uma reação tão óbvia.

Falando em omissão, na pré-escola cantávamos muito o Marcha Soldado, mas só hoje fui botar reparo no “que” de egoísmo e ditadura na letra: “Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel...”- prendem uma pessoa a troco de nada! – “...o quartel pegou fogo, Francisco deu o sinal: acode, acode, acode a bandeira nacional”- os demais soldados que morram queimados, o importante é salvar um pedaço de pano. Com todo respeito à bandeira, mas num momento crítico como esse, ela realmente não passa de um pedaço de pano.

Ainda na esfera da violência, existia a criança que queria matar o avô: “Serra, serra, serrador. Serra o papo do vovô”. Eu cantava isso na casa do meu avô, na maior inocência, achando que o tal papo era uma gíria para conversa (corta a conversa do vovô – sei lá, vai que a conversa do tal vô era meio chata...). E no entanto, hoje há casos de netos que, literalmente, serram não somente o papo dos membros da família.

Temos ainda casos de abuso de autoridade: “Pai Francisco entrou na roda tocando seu violão / Vem de lá seu delegado e Pai Francisco foi para a prisão...” – Coitado de Pai Francisco! Que mal tem, ele participar da roda com o violão? Isso caracteriza perturbação da ordem? –“...como ele vem todo requebrado, parece um boneco desengonçado” – pudera. Deve ter levado uma surra na cadeia.

E o ou a tal da Pom-Pom que estimula o vício do fumo? “Pom-Pom, Pom-Pom, aonde vai, Pom-Pom? / Vou à feira / Fazer o que, Pom-Pom? / Comprar cigarro”. Depois de versinhos assim, não deve ter adiantado nada terem censurado a embalagem dos deliciosos cigarrinhos de chocolate da Pan.

Outra muito executada nas brincadeiras de roda e corda era “Lá em cima do piano tem um copo de veneno / Quem bebeu, morreu / O azar foi seu!”. Credo. Isso dá a idéia de uma pessoa completamente indiferente às desgraças alheias, como quem diz: “Ele morreu? Antes ele do que eu”. Fora que quem larga um copo de veneno sob um piano não está nada bem intencionado...

Nos recreios e na casa da minha avó, eu ouvia aquela do tal trem maluco que saía de Pernambuco e ia até o Ceará. Tem um trecho ali que, além de denegrir a imagem das professoras primárias, ainda incentiva a luxúria: “...Minha mãe me pôs na escola para aprender o b-a-ba, mas a danada da professora ensinou a namorar...”- aula que é bom, nada. Só safadeza – “...sete e sete são catorze, com mais sete, vinte e um / Tenho sete namorados mas não gosto de nenhum”. Sete “cabras” enganados por uma namoradeira analfabeta sem sentimentos.

Meu intuito não era parecer amarga demais e, nem de longe eu quis dizer que essas cantigas tão folclóricas sejam terríveis e que possam ter virado a cabeça das crianças. Eu passei a minha infância toda ouvindo-as e cantando-as e nem por isso fui na onda da Pom-Pom e fumei, não atirava coisas nos gatos e sempre soube que caranguejo jamais foi peixe. Acho até saudável que crianças – de qualquer geração – tenham contato com elementos tão simples como cantigas de roda e que, apesar de todas as “desgraceiras” das letras, ainda trazem consigo toda aquela inocência que está se perdendo. Esses apontamentos que fiz e que tantos outros já fizeram ou farão, não passam de chistes, brincadeiras ou uma forma metida à engraçadinha de nos trazer à tona lembranças da infância.

Mas uma coisa parece ser fato: embora essas músicas não comprometam o desenvolvimento das crianças, elas refletem, ainda que de modo inconsciente, um traço muito marcante do perfil dos brasileiros – o da indolência, da baixa auto-estima e da servilidade humilhante – já que para que alguma coisa seja feita ou aconteça, é preciso que alguém receba alguma recompensa ou ameaça, como nesse caso: “Sambalêlê ta doente / Ta com a cabeça quebrada / Sambalêlê precisava é de uma boa lambada”. Imagino que Sambalêlê não tinha condições de trabalhar para seu senhor, mas mesmo assim ele ou ela devia cumprir com suas obrigações, nem que para isso tivesse que apanhar. Acredito que essa canção remeta à época da escravidão, e ainda assim, depois de tanto tempo, essa mentalidade de “faz isso ou apanha”, ou “faz isso e você ganha aquilo” ficou tatuada em nossas mentes, ficou adormecida em nosso subconsciente, e em algumas pessoas isso acaba despertando sob a forma de brincadeiras maldosas e preconceituosas ou perversidade pura.  

Indolência, arrogância, intolerância e crueldade são heranças péssimas que nem as mais bonitinhas melodias de roda conseguem disfarçar. Se tais cantigas continuarem a ser passadas às próximas gerações – como devem ser, inevitavelmente – não estranhem se um dia nossos filhos e netos repararem nas mesmas coisas que reparamos hoje. Afinal, mais cedo ou mais tarde o encanto se quebra – como o anel de vidro daquela outra canção.

(23/07/2008)
Veridiana Sganzela Santos
Enviado por Veridiana Sganzela Santos em 27/02/2010
Código do texto: T2109940

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Sobre a autora
Veridiana Sganzela Santos
Garça - São Paulo - Brasil, 35 anos
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