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Apenas escrever

Circula por aí no youtube uma entrevista concedida ao jornalista Julio Lerner, em 1977. Trata-se de um vídeo onde uma escritora dialoga com o jornalista, transcorrendo sobre sua obra, concepções de mundo e vida pessoal. Até aí, embora interessante, não há nada de muito extraordinário nisso, concorda? Mas há um detalhe delicioso: estamos falando de Clarice Lispector.

A intrigante personalidade dessa mulher se derrama pelo vídeo, num espetáculo que a gente se cala para ouvir. E ver. Porque a existência física de Clarice, seus modos e gestos são especiais. Estranha, enrolada, lacônica, ela se mostra um misto interessante de silêncio e vontade de falar. Não sorri uma só vez. Toda a entrevista é digna de atenção, e extremamente prazerosa de analisar. Mas há uma parte que me impressionou em especial.

O repórter perguntou se, quando a jovem Clarice encontra-se resolvida a trabalhar com literatura, ela pensa em um público específico, se tem algum projeto, ou se deseja apenas escrever. Clarice respondeu rápido e tranqüilo, mais ou menos como fazemos quando nos perguntam nosso nome, ou qualquer outra coisa que esteja sólida e bem resolvida dentro de nós. A resposta serviu-se das palavras do próprio entrevistador: “apenas escrever”. E ponto final.

Fico desconfortável. É altruísmo demais, desprendimento demais, amor demais. Será que hoje, os escritores de hoje exercem sua arte apenas pela paixão de exercê-la, mesmo que isso não lhes traga glória, lucros, ou mesmo prazer? Será que eles têm peito para produzir sem pensar no público-alvo, nas cotas, nas futuras entrevistas e coquetéis para os quais serão convidados, será que eles têm peito para serem herméticos se seu estilo exigir, e abdicar do reconhecimento e das cifras e até de uma certa paz interior para viver a arte sem adornos?

Mudando de assunto, na mesma entrevista o repórter indaga quando Clarice assumiu a profissão de escritora. Outra resposta interessante: “eu nunca assumi”. Ela também não se considerava popular. Mas talvez tenha sido justamente esse amadorismo apaixonado, essa entrega, que a transformou numa escritora “profissional” e famosa, embora hermética e muito pouco compreendida.

O ponto é um só: Clarice Lispector é um excelente exemplo do intrigante fato de que a arte é maior do que os homens, embora eles teimem. Se nós adaptamos a moça à nossa necessidade de aplauso, à nossa futilidade, ou até mesmo se a tornamos pesada demais com nosso profissionalismo, acabamos por cortar-lhe as asas.

Talvez seja por isso que acho tão ruim a maioria dos poetas que leio por aí. Porque eles não ambicionam escrever, ambicionam ser lidos. Sabe como é, querem comentários, elogios homéricos atirados à queima roupa, e por isso atiram elogios homéricos à queima roupa dos colegas, para receber retorno. Enfim, seguem todos os passos para produzir uma literatura vazia, envernizada pela vaidade pessoal...

Será que eles conseguem “apenas escrever”? Eu mesma gostaria. Somos todos uns idiotas.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 07/08/2006
Código do texto: T211386
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139771 leituras)
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Jéssica Callou