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" NOVELA DE TV"




Ela gostava de novela, bem muito, um tantão assim...
Ele gostava de tudo, menos de novela da TV. Mas se resolviam bem, nos horários de novela ele via o vídeo de um jogo do Mengão. Ela queria aquelas emoções, a moça na sala de cirurgia tendo filho, sua cara de dor, a morte que resolve chegar, sua expressão de horror, e a médica que orienta os procedimentos, mas retém o choro, é uma profissional de primeira: doutora, eu vou morrer? – pergunta a parturiente sentindo alguma coisa se aproximar, luzes cores, expressões de não agüento mais e o capítulo é consumido. Nos cofres da emissora de TV, 50 milhões de receita com essa única apresentação de dor e sacrifício.
A protagonista, atriz já bem usada em muitos papéis delirantes está vibrando, doida pra chegar a casa e assistir ao capítulo que mandou gravar. Não via à hora de ver a si mesmo, naquelas caras e boca que fez sob a direção do titular e muito mais de si mesmo, que conhece essas bobagens de cor e salteado. Ela esteve ausente, e retornava sob os eflúvios do poder global. O que o Brasil estaria sentindo? Lógico, muita emoção, a pátria tinha o olhar voltado para a heroína, que era corna e esbravejava contra o vilão, mas sempre aparentando um desejo incontido de dar mais pra aquele sem vergonha. A novela rodando um tempão e tudo que aconteceu foi em torno da traição amorosa que ainda estava rendendo e agora um parto aonde uma moça ia para o beleleu. A atriz e a personagem que seriam sacrificadas em homenagem à desgraça que deve imperar. A comoção pública em destaque, a jovem atriz não via á hora de dar os berros finais e ver os reflexos nas revistas de TV. Ir ao Faustão onde seria homenageada pelo apresentador que diria ser ela a melhor do Brasil em alguma coisa, ainda não se sabe o que, mas que ela seria homenageada como a melhor, eram favas contadas. É sempre assim, em um país com consciência nacional de valores invertidos: o orgulho maior e atração principal são o futebol, a novela e os políticos canalhas, sanguessugas e vampirescos, que serão reeleitos, o espetáculo não pode parar.

evaldodaveiga@yahoo.com.br
Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 09/08/2006
Código do texto: T212359

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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
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Evaldo da Veiga