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MEU PAI GUARDAVA PARAFUSOS

        Os pais esquecem, ensinam sem saber. Gestos insignificantes gestam exemplos para toda a vida: “um exemplo vale mais que mil palavras”. Entre pais e filhos, ainda é mais forte. Nada vale um discurso sem exemplo. Palavras dos pais, com exemplos, são coisas urgentíssimas para o mundo.

Se palavras e exemplos não puderem existir ao mesmo tempo, opte o pai por exemplos. Gestos, mesmo silenciosos, dizem verdades gritantes. Que o pai fique em silêncio, mas mostre.

Caminhando pela rua, encontrei um parafuso. Tomei o caderninho do bolso e anotei: “Meu pai guardava parafusos”. Ele nunca imaginou que, recolhendo-os ao bolso e guardando-os em uma lata vazia de querosene, ensinava segredos. Ignorávamos. Ele mostrava. Eu aprendia. Repartíamos vida. Bastava.

Na roça, parafusos tinham suas utilidades. Segurar uma peça da trilhadeira, engrossar o olho de um cabo de enxada. Ou prender no telhado da casa um zinco afrouxado por vento.

Na estrada, meu pai detinha o passo, curvava-se, e recolhia ao bolso um parafuso qualquer. Não importava ferrugem, tamanho, rosca gasta. O importante era nunca abandonar um parafuso por desconhecer a utilidade futura. No caso de meu pai, o exemplo sempre dava mão às palavras. Na verdade, ao conselho. “Meu filho, nunca sabemos onde e quando utilizaremos este parafuso. Um dia, na precisão, descobriremos”. E prosseguia.

Há pouco, chegando da rua, sentei-me ao computador e passei a limpo a anotação do caderninho.  O que teria meu pai me ensinado naquele seu exemplo? Não moro no interior, não uso ferramentas. Trilhadeiras quase não existem. Enxadas são raras. Os telhados são de concreto. Teriam sido inúteis os exemplos e desperdiçados os conselhos?

Não. Mesmo sem perceber, imito meu pai. Ando pelas ruas e também recolho parafusos nos bolsos. Depois, me acompanharão até em casa, habitarão uma lata. Claro, os parafusos não são de aço. Chamam-se palavras, feitas de letras e sonoridades. E acaso não levo nos bolsos esse caderninho para anotar idéias? E a lata de querosene de meu pai não é este computador onde guardo as anotações e as transformo em textos?

Graças à anotação recolhida na rua, acabo de escrever esta crônica. Como meu pai me ensinou, todo parafuso recolhido guarda uma utilidade, embora desconhecida. E eu a descobri muito antes do que imaginava.

Os pais, mesmo sem saber, sempre nos ensinam coisas para a vida. Nós, mesmo ignorando, repetimos sutilmente nossos pais.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 09/08/2006
Código do texto: T212912
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5110 leituras)
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