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O PORTÃO

            Não sei se vocês já notaram, mas quem mora em casa está sujeito a atender à campainha do portão um sem número de vezes do qual, a maioria, é só mesmo para fazer raiva. No meu caso havia, ainda, um agravante: um ponto de ônibus bem em frente, do outro lado da calçada. E que houvesse água gelada suficiente para atender à demanda, porque se não estivesse gelada a reclamação era imediata.

           Minha empregada ficava danada da vida. Geralmente estava ocupada com algum de seus afazeres e tinha de interrompê-los, razão para fechar a cara e atender de má vontade qualquer um que lhe atrapalhasse o bom andamento do trabalho.

           Lembro-me de uma velhinha que nunca aceitava de bom grado apenas um real, queria mais. Um outro pedinte que aparecia aos sábados era um tanto bajulador, e achava sempre um jeito de me levar na conversa: Uma vez eram as linhas do seu barraco que os cupins estavam destruindo, outra a netinha que necessitava de remédios ou material escolar e, até mesmo, uma viagem de peregrinação à Canindé. Isso sem falar na Semana Santa, Páscoa, Natal e não sei o que mais. Chamava-me de "doutorinha do céu". Ficou transtornado quando dei-lhe uma quantia maior em dinheiro e comuniquei-lhe que estava de mudança.

           Impossível deixar de falar nos vendedores que ficavam na esquina. Santo Deus! Se você cair na asneira de adquirir algo do que eles vendem uma única vez, acabou-se o sossego. Como eram em número de quatro ou cinco, de hora em hora tocava um oferecendo artigos os mais diversos: desde frutas a espanadores. Comprei uma primeira vez e esta
foi, também, a última.

           Pessoal ineressante, mas por demais insistente, eram os evangélicos, ou seja lá que nome tenham, tentando impingir-nos alguns de seus folhetos ou livros. Eu argumentava que, em pleno século vinte e um, com padres e pastores ocupando tempo integral na TV, não havia mais sentido em andarem de porta em porta na difícil tarefa de fazer prosélitos. Como conheço um pouco da Bíblia (e quem não conhece?) sempre retrucava às citações que faziam, porém perdia meu tempo e o latim. Assim, para encurtar um diálogo que acabaria por se tornar monótono e muito extenso, eu, SEM MAIS DELONGAS, alegando um bom motivo, pedia licença e me retirava.


                                           Abr-2006




             Texto para a aula de "Criação de Literária"
             em que a professora sugeriu, entre outras,
             a expressão SEM MAIS DELONGAS.
HLuna
Enviado por HLuna em 10/08/2006
Código do texto: T213227
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
HLuna
Fortaleza - Ceará - Brasil
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