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Despertar

Despertador toca, levanto, tomo um café rápido e saio na neblina que encobre a manhã.Caminho cinco minutos até o ponto onde compro meu passe com a simpática "Moça dos Passes".Faço essa via sacra todos os dias, mas hoje foi diferente...
O despertador atrasou, demorei para levantar e nem tomei café, o dia estava claro sem aquela cortina de seda com à qual já me acostumei, os cinco minutos até o ponto pareceram durar meia hora, comprei meu passe e antes que pudesse colocar meu fone no ouvido, chegou ele, cujo nome não conheço, por isso, o chamarei de Menino, ele se aproximou olhando dentro dos meus olhos dando passos receosos com os cambitos subnutridos e a barriguinha saliente de quem tem já passou muita vontade na vida, os olhos cheios de remela e as vestes de verão rasgadas em pleno inverno que corta até nossa alma, sem cerimônias o Menino estendeu a mão, abriu a boca e disse:__Tia-me-dá-um-trocado?;Falou assim desembestado, na pressa de quem quer acabar logo com o assunto.Olhei para ele, e perguntei quase que com o mesmo desespero, se estava com fome, o Menino balançou a cabeça para cima e para baixo, virei meu rosto e mirei a barriquinha de doces da Moça dos Passes, dei quatro passos até lá, o Menino me seguiu, falei para ele escolher o que quisesse, que eu pagaria.Os olhos dele brilharam em meio aquela dúvida cruel...o que escolher?.Sugeri a bolacha, e o salgadinho ele prestando atenção na direção de onde viria meu ônibus, talvez com medo do mesmo sair, e eu deixá-lo lá sem dinheiro para pagar, sem mais hesitar, aceitou minha sugestão.Paguei.O Menino sorriu, e com a voz tremida por causa do vento que agora, soprava forte, falou brigada Tia e saiu pulando, seguido por três cachorros, que têm domicílio fixo ali no ponto, eles sentaram em volta do Menino, olhando do mesmo jeito que ele havia me olhado a minutos atrás.Sinal.Meu ônibus chegou, entrei, passei a roleta , fui andando até os bancos do fundo, pelo vidro traseiro era possível ver o Menino dividindo a bolacha e o salgadinho com os cachorrinhos.Atrás de mim,a conversa das duas mulheres era a seguinte:__Tá vendo aquele Muleque?
__Sim estou!
__Mal tem o que comer,e é tão idiota que ainda dá de comer aos cães.
Coloquei o fone no ouvido, no volume máximo.
Enviado por Ká em 11/08/2006
Reeditado em 07/10/2008
Código do texto: T214443

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Sobre a autora
Suzano - São Paulo - Brasil, 29 anos
31 textos (2107 leituras)
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Ká