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DE HOMEM PRA HOMEM


“*Ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender.”
- Filho, desculpa-me. No desejo de proteção te prendemos em uma torre. Por isso procuras janelas. Há janelas e janelas. A do quinto andar é para ver as estrelas. Se eu tivesse te dado asas, não buscarias nenhum abismo. Se tivéssemos conversado sobre vôo, ambos teríamos asas. Agora te jogaste da janela sem asas e teu pai, aqui, águia domesticada, sofre. Não te ensinei a voar porque eu mesmo já tinha esquecido.

“*Quero colo, vou fugir de casa, posso dormir aqui com vocês?”
- Pai, sou instável. Busco referências. Quero colo. Sou rebelde. Um dia, durmo na casa de amigos; no outro, queria estar em sua cama. Minha inconstância não é falta de amor. É falta de rumo.
- Filho, não fiz cursinho de paternidade. Sinto-me uma mala de louco com tua inconstância. Ora amor, ora ódio aparente. Quando menor, eras menos volúvel! A mãe e eu não sabemos muito bem costurar tuas verdades. Em nosso coração ainda és um menino chorando nas madrugada, enquanto, hoje, nas madrugadas choramos nós. A cidade é perigosa. Temos nossos medos.

“*É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.”
- Filho, o que faríamos se fosse hoje nosso último dia juntos? Amar-nos, embora diferentes.
- Pai, amo você. Amo mesmo quando digo “volto à meia noite” e chego às seis da manhã. Amo sem estudar, amo ausente. Amo rebelde e volúvel. Amo incompreensível.

“*Me diz por que o céu é azul. Me explica a grande fúria do mundo.”
- Filho, o mundo tem belezas e tragédias. Não sei o porquê. Seria Deus o culpado? Seriam os homens? Seriam as centopéias? Seu pai pergunta muito, sabe pouco. Onde foram guardadas as explicações para o amor e o ódio? Diz o que pensas. Conversemos. É simples.
- Pai, o mundo me dá medo. Metade de mim é sonho. Pergunto. Irei realizá-lo? Me ajudará o céu azul? Serão de areia meus castelos sob a fúria do mundo? Metade de mim é angústia.

“*Você diz que seus pais não entendem/Mas você não entende seus pais.”
- Pai, há ruídos em nossa comunicação. Entendo rio a seu mar. Entendes telhado a meu céu. Buscamos a mesma pousada. Difícil é a trilha. Sobra-me energia, falta-me direção. Você tem a bússola, pai, mas carece do ímpeto. Serei sua vitalidade, você minhas margens.

“*São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?”
O adulto esquece que foi jovem. O jovem esquece o envelhecer. Cada fase da vida fornece uma peça do mundo. Crescendo, ganhamos outras. A paisagem final será montada quando pais e filhos, avós e netos, pusermo-nos ao redor da mesa, cada um com suas peças. Estudando o encaixe, girando, mudando a perspectiva de olhar, dialogando, veremos a vida completa.

 O mundo será humano quando não houver mais jovens jogando-se de janelas para descobrir o vôo e quando nenhum pai for preso em um asilo, se de asas fracas.
*“Pais e Filhos” de Renato Russo
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 13/08/2006
Código do texto: T215407
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5110 leituras)
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