A NEGRA CONSCIÊNCIA BRANCA

Hoje me deu um arrependimento danado, do tempo que joguei ao relento e que poderia ter dedicado a aprimorar meus supostos dotes de escritor. Talvez eu pudesse me transformar em alguém, cujos textos corressem de folhas em folhas, de olhos em olhos, de boca em boca e merecessem a atenção que por momentos acho que minhas idéias merecem; que meus argumentos justificam; que minhas teorias intencionam tornarem fatos. Teria aprendido mais de gramática, mais de concordâncias, verbos e adjetivos, de pronomes e todas essas coisas gramaticais que tanto sabem os grandes escritores.

Mas queria mesmo seria poder escrever e rogar e pedir e implorar até, que lessem sobre o assunto, quando falo sobre "A NEGRA CONSCIÊNCIA BRANCA". Nesse tema, queria dizer que nós, componentes da raça tida branca, é que deveríamos ter uma semana para refletir sobre o que fizemos - nossos ancestrais claros - com os negros, meros humanos coloridos, tanto quanto nós de peles pintadas de tons pardos.

E termos toda uma semana para penitenciarmos-nos diante da burrice da distinção e concluir que ainda teremos a vida inteira para refletir sobre isso e eventualmente nos arrependermos - por nossos antepassados negros de pele branca e por nós mesmos - por tudo que cometemos de desumanos para com os negros, consistidos em verdadeiro pecado capital, pelo qual eles pagam até hoje e ainda pagarão por muito tempo.

Temos, ainda bem, muitos e muitos anos de civilização humana, nesse pedaço do mundo, para humanamente nos conscientizarmos das dores e ardumes a que sujeitamos nossos semelhantes negros, nessa distinção burra, idiota e satânica. Eu faço minha parte, tenho feito desde que me entendo como gente e o farei até meus derradeiros dias, unicamente para tentar reparar os danos e pecados que também cometeram todos aqueles de quem carrego o sangue que corre em minhas veias, donde venho herdando os códigos genéticos que formam minha inteligência e que são tão semelhantes aos nossos pares de pele negra.

Não são os negros que precisam de uma semana para os cultos de conscientização. São todos os brancos e pálidos que precisam de um período para cultuar o arrependimento e os negros ao lado aplaudindo e nos perdoando. Nem vamos entrar no mérito da igreja, que teve grande e nefasta participação nessa segregação da cor, subjugando uma raça apenas pela cor da pele.

Nem preciso dizer de que qualquer branco ou negro, independe, que tenha apenas médio conhecimento da lógica da adaptação do homem ao meio, em termos físicos, para saber do porque da cor da pele, da densidade dos cabelos, da produção da melanina e tudo mais que a natureza nos permitiu e nos privilegiou para que sobrevivamos a hostilidade do meio ambiente em que vivemos.

Deixa pra lá. Se nos arrependermos já desse burro racismo, já está muito bom.