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Um dia no parque

Hoje amanheci diferente, acordei pelado. Acredito que tudo tem a ver com o fato de poder comemorar mais um dia de luta, isso não me entristece, muito pelo contrário, me faz dar boas gargalhadas, me deixa nu para viver e sonhar. Sei que ganhei mais vinte e quatro horas para desfrutar a vida como ela é, e nos pertence. É verdade que o viver me choca, me faz pensar ativamente no quê o amanhã poderá me oferecer de bom e de ruim.

Existem momentos como este, em que me pego pensando sobre o amor e o desamor. Sentimentos completamente diferentes e opostos, por isto, tão malucos e complicados para o meu eu - menino. Alguns afirmam que: “o que não é vida, é morte”. No fundo, essas “teorias” são conflitantes e causam em mim, uma enorme dificuldade de entendimento. Por isso, perguntei à minha amada que caminhava comigo no parque:

__ O quê não é amor é desamor?
Ela contou nos dedos de um a dez. Olhando em meus olhos, sentenciou:
__ Isto é um quebra-cabeça!

Aí fiquei sem entender patavina, havia acabado de ler “O Banquete”, onde Platão discursava: “o amor é a insuficiência de algo e o desejo de conquistar aquilo que sentimos falta”.

Daí, perguntei de novo:
__ Como é isto! Um quebra-cabeça?
Ela olhou-me como se eu fosse uma criança grande.

__ Sim, um quebra-cabeça de alguns milhares de peças, onde o que se vê são cores e formas extremamente parecidas. Peças e desenhos que se encaixam com perfeição, aonde o todo vai se formando lentamente, ou melhor, gradativamente. Ora as peças são trocadas de lugar, ora são substituídas ou esquecidas por alguns segundos, mas nada que possa ser deixado para trás. É preciso que as mãos sejam delicadas, firmes e coesas, na hora da colocação das partes. Se, ao final, algum objeto não estiver em seu devido lugar, de fato e de direito, o esqueleto não ficará completo. Este raciocínio é lógico e razoável, mas no momento em que se for colocar a última peça, é importante que se tenha a certeza de que tudo aquilo é verdadeiro e que, não pode ser diferente. Assim sendo, o tabuleiro estará completo, as peças, coladas, formarão um único elemento, um ente ímpar, dotado de corpo e alma.

__ E Platão? Onde fica nesta história?
__ Veja o que ele disse: “o amor é a insuficiência de algo e o desejo de conquistar aquilo que sentimos falta”. Ele que me perdoe, o que penso, segue outra vertente. Perceba que no meu quebra-cabeça as peças não são metades, mas sim, entes inteiros e acabados, entes que se completam. Peças isoladas não significam necessariamente que sejam metades, que devam se completar em algum momento de suas andanças, mas que, juntas, formam um bloco coeso e sólido. Portanto, cabe a cada um de nós decidir quais são as peças inteiras que podem fazer parte da nossa vida, do nosso tabuleiro.

Quando estávamos saindo do parque, por ironia do destino, ouvi o vocalista da banda Ultrage A Rigor cantar “Eu Me Amo”. Já não sei quem é que está com a razão: se Platão com suas metades, se minha musa com seus inteiros ou Roger com seu egoísmo exacerbado. Ah já sei, vou ficar com a filosofia caipira da minha avó que dizia: amor é o que me rega, é o que me faz chorar pra poder viver.
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 16/08/2006
Reeditado em 16/08/2006
Código do texto: T217774
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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Pedro Cardoso DF