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Quem pensa não casa?

Quem pensa não casa?
 
Assisti a um filme nacional muito interessante chamado "A dona da história" em que uma das personagens da juventude da atriz principal disse uma frase que já ouvi várias vezes, mas que sempre achei de péssima qualidade: "Quem pensa não casa". Ora, sem o uso do pensamento, e, portanto, da razão nem um empreendimento humano, seja de índole emocional, afetiva, material ou financeira pode ter sucesso, e, da mesma forma, o casamento que nada mais é do que a união em um mesmo lar de duas pessoas que se amam, independentemente da "assinatura de um papel", que é um ato mais burocrático e hipócrita do que sincero e afetivo.
Quem pensa, casa sim, mas com uma pessoa com a qual se relacione harmonicamente. Quem pensa, ama sim, mas quem merece o seu amor, quem pensa se valoriza e respeita antes de valorizar o outro, de forma que não se deixa levar por ilusões e paixões que trazem mais dor e agitação do que calma e equilíbrio. Mas, o que seria, realmente, o amor? Ontem esta questão habitava minha mente e me angustiava. Como podemos ignorar aquilo que sempre tivemos como ideal por alguém, como podemos amar alguém que é diferente de nós, que pensa diferente, que vê a vida e os relacionamentos de forma completamente diversa da forma com que encaramos? Me lembro então do "Eduardo" e da "Mônica", que "eram nada parecidos, ela era de Leão e ele tinha dezesseis,ela fazia Medicina e falava alemão e ele ainda nas aulinhas de inglês, ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, de Van Gogh e dos Mutantes, do Caetano e de Rimbaud, e o Eduardo gostava de novela e jogava futebol-de-botão com seu avô". Enfim, os diferentes podem ter um relacionamento feliz, desde que um queira e consiga aprender com o outro para que surja o equilíbrio capaz de manter o encanto e, conseqüentemente, o amor.
Ora, "quem um dia ira dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração"? Realmente, é difícil de explicar, mas não sabemos se atualmente o Eduardo e a Mônica ainda estão juntos, posto que, se no início de um relacionamento nossa paixão justifica o "injustificável" (o amor ao oposto),  no decorrer da relação pode ser que ela não "funcione" tão bem como no início. Não, não é a paixão, este bálsamo que nos faz "compreender", "entender" e "ter paciência"! É o encanto que, na balança do relacionamento, esta em um lado, enquanto o amor esta no outro. Ocorre que, se o encanto diminui o amor não aumenta, pois nesta balança o desequilíbrio é o algoz, de forma que o amor e o encanto devem estar sempre retos, em equilíbrio. É o encanto que nos incentiva a perdoar as mancadas, a aceitar o rumo diverso das idéias do amado, mas, se aos poucos, com pequenas alfinetadas o encanto vais se esvaindo como areia entre nossos dedos, o amor, juntamente com ele, vai terminando.Sem o encanto o amor se esvai e a razão começa a imperar de forma fria e impiedosa.
Antes de o desencanto surgir a razão estava ativa mas de forma diversa pois o encanto faz com que nossos pensamentos sejam doces, com que sejamos indulgentes para com as falhas do companheiro, enfim, faz do amor entre um homem e uma mulher (ou homossexual, não condeno nenhuma forma de amor) algo puro, como deve ser o amor ideal, enfim, um exemplo de amor caridoso e cristão, como o que "deveria" existir entre todos os seres humanos mas que, posto as diferenças morais e espirituais existentes entre os homens é concebível apenas através da manifestação do respeito  de acordo com a máxima: "fazei aos outros apenas o que desejas que eles vos façam".
Trato, aqui, do amor que o ser humano busca, daquela vontade inerente que possui de ter alguém com quem dividir os sonhos, a realidade, as fatalidades, afinal, como dizia uma outra musica que eu adorava na minha fase adolescente "enquanto a vida vai e vem, você procura achar alguém que um dia possa te dizer: quero ficar só com você". O homem deseja ter uma outra metade, alguém que o compreenda. É difícil, porém não impossível, este encontro, mas mais difícil ainda é saber nutrir este amor, é saber cultiva-lo, para que fique forte a ponto de superar as barreiras que a vida impõe. Por outro lado, o amor pode morrer de inanição porque, se ele cresce por pequenos detalhes, o encanto vai secando com pequenas alfinetadas, (fruto da falta de equilíbrio e harmonia entre as mentes dos amantes que não foram racionais o suficiente para buscar o aprendizado mútuo) que podem causar uma grande ferida na alma de quem ama.
A maioria das pessoas deixa suas relações findar porque não pensam. Não pensam nos sentimentos do outro, e, muitas vezes não tentam conhecer melhor aquele que dizem amar, não pensam na vida a dois e na importância de evoluir mental e espiritualmente para que ambos estejam em constante harmonia. Refletir sobre a relação, sobre a importância do amor que se sente é fundamental para que nutramos no outro o encanto que equilibra a balança da relação e faz com que o amor se mantenha, e a relação seja duradoura e feliz sem decair por pequenas coisas que são, na verdade, fruto da falta de reflexão do homem. Assim sendo, quem pensa ama e casa fadado a felicidade, por outro lado, quem não pensa não sabe cultivar o amor e tampouco uma união.
 
Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 11 de agosto de 2006.
Cláudia de Marchi
Enviado por Cláudia de Marchi em 17/08/2006
Código do texto: T218472
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Sobre a autora
Cláudia de Marchi
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 34 anos
12 textos (960 leituras)
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Cláudia de Marchi