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"Que país é este": a canção que deveria ser o hino nacional.

"Que país é este": a canção que deveria ser o hino nacional.
 
Sou uma pessoa eclética, gosto de vários tipos de música. Há uns 10 anos atrás não suportava música sertaneja, hoje, dependendo da letra e da voz dos cantores gosto. Sempre gostei de poesia, em especial do Fernando Pessoa, sempre gostei de filosofia, de Aristóteles à Nietzsche. Sou eclética mas, entre o romântico e o "social" prefiro este, gosto de filósofos críticos, de cantores sagazes, do tipo que, por ser mentalmente ativo, seria queimado como herege pela "Santa Igreja Católica" na idade média. Não encontramos mais filósofos como outrora, tampouco cantores, com exceção do Gabriel (- o pensador) que deve "andar" pensando por aí, afastado da mídia. Neste início de século ouvimos música de qualidade baixíssima, musicas "vendáveis" para tocar nas rádios e nas novelas.
Nada se compara as letras da Legião Urbana. A inteligência do Renato Russo era raríssima, Cazuza com suas letras dramáticas e românticas não se compara ao Renato (gosto do Cazuza também) com seu sarcasmo inteligente, os preconceituosos que me perdoem: homossexualismo não é defeito, ignorância de espírito e futilidade mental, são, e disso o Renato estava longe.Ele pensava e como pensava. Atualmente o Brasil não merece o hino que possui, mas aquele que Renato escreveu há mais de 20 anos, e que é e sempre será atual, que se inicia da forma mais "descarada" possível: "Nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado, ninguém respeita a Constituição mas todos acreditam no futuro da nação... Que País é este...", e para findar este "nosso hino" nos chacoalhava dizendo: "Terceiro mundo se for, piada no exterior, mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão". Algo mais apropriado para o Brasil das novelas, das bundas, dos peitos, das malas de dinheiro, dos mensalões, do presidente "decorativo", do preconceito, inclusive contra aqueles que eram os donos desta terra? Creio que "Que pais é este" cai como uma luva para nossa nação.
Deixemos o "Ouviram do Ipiranga" e vamos cantar "Que país é este". O hino de nosso Estado sabiamente diz que "não basta para ser livre, ser forte aguerrido e bravo, povo que não tem virtude acaba por ser escravo". E somos, meu povo, nós não somos, apenas, escravizados pela mídia e pelo governo, nós somos escravos de nossa própria ignorância. Não pensamos mais, apenas ligamos a televisão e nos distraímos, falta investimento em educação, falta investimento em saúde, milhares de crianças mendigam, a maioria da população não chega ao terceiro grau, mas nosso País é famoso: tem carnaval, tem bundas, tem mulher pelada e futebol, para que melhor?
Nosso País perdeu a identidade (se é que teve uma), não é indígena, não é português. Foi uma terra invadida por pessoas interessadas em explora-lo, e, atualmente, é a nação invadida pela corrupção, pela falta de vergonha dos políticos, pela falta de organização do povo que, num Estado Democrático de Direito, limita-se a fazer piada as próprias mazelas. Então, me recordo de outra música da banda brasiliense que ouvia na minha infância e adolescência: "Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações o meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões, vamos celebrar a estupidez do povo, nossa policia e televisão, vamos celebrar nosso Governo e nosso Estado que não é nação, celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas celebrar nossa desunião..." Sempre atual, assim falava sobre nosso "famoso carnaval" : "vamos comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado, todos os mortos nas estradas, os mortos por falta de hospitais, vamos celebrar nossa justiça, a ganância e a difamação, vamos celebrar o preconceito, o voto dos analfabetos...vamos celebrar nossa bandeira nosso passado de absurdos gloriosos, tudo o que é gratuito e feio, tudo o que é normal". Perfeição é o nome desta música que é um tapa na cara do povo, em especial dos que conseguem pensar e entende-la. "Perfeição" retrata o Brasil País imperfeito, das desigualdades sociais, em que quem tem pouco não tem tempo para refletir e agir, e que quem tem muito quer mais (para gastar com futilidades), enfim, a maioria pobre e rica não reflete, mantém-se na ignorância, na apatia.
Como advogada não me esqueço desta e de tantas canções que são especiais porque raras, afinal critica ao poder é algo raro, pois faze-lo requer tripudiar a mídia e isso pouco se faz, pois as "bandas" de hoje querem enriquecer, querem sucesso, e falar a verdade sobre a sociedade não faz tanto sucesso como falar "coisas belas e meigas". Os cantores de hoje querem, apenas fama,  dinheiro, aparecer na televisão, vender discos e "tocar nas baladas". Skank, Jota Quest,etc...bandinhas legais, musiquinhas boas, porém tolinhas, romanticazinhas como uma boa música sertaneja só que com ritmos mais "hight class" com letras que não nos fazem refletir sobre o mundo em que vivemos, nos cutucando para que celebremos "a inveja, a intolerância e a incompreensão" para que o povo vá " festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada" bem como a "aberração de toda nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação".
Não existem mais compositores-poetas, compositores-críticos, a nossa nação acostumou-se a não pensar em suas mazelas, acostumou-se com o mal que infestou a sociedade, acomodou-se com sua alegria infeliz, porque acomodando-se em suas poltronas para assistir televisão ela "curte" a vida que têm sem pensar nela, sem pensar nos horrores do mundo e pensar em uma forma de faze-lo mudar. "Povo que não tem virtude acaba por ser escravo", povo que não pensa, que não reivindica seus direitos, nasce e morre sob o jugo do carrasco travesti chamado "Ignorância".

 Cláudia de Marchi

Passo Fundo, 1º de agosto de 2005.
Cláudia de Marchi
Enviado por Cláudia de Marchi em 17/08/2006
Código do texto: T218475
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Sobre a autora
Cláudia de Marchi
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 34 anos
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Cláudia de Marchi