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" Ela viu e sentiu o amor "




Ele queria chegar à frente, sempre. Concorrendo com todos e, muitas vezes, consigo mesmo. Valia o dinheiro e o poder, até que o mundo fosse outro, pensava assim.
Carlota já não suportava essa vida de milionária. Pra que tanto dinheiro, se não tinha tempo pra viver? Sentia-se só, muito só. Felizberto era um milionário sem tempo, mas era educado, convencionalmente cortês. Mas reparando bem, faltava nele à autêntica atenção, o verdadeiro zelo, faltava tudo. Carlota sentia-se sufocada e resolveu andar por ai... Sem rumo, sem destino. Dispensou o motorista e avisou ao mordomo que não tinha horário de regresso. Saiu pelo portão social da mansão. Quantos anos não passava por ele. Vinha usando  o portão da Alameda, sempre a bordo de sua limusine.

Que vontade de ver a vida lá fora, senti-se diferente naquele dia, vontade de viver verdadeira vida...

Andou em torno de um quilômetro e viu uma carrocinha de pipoca. Fazia muitos anos que não comia pipoca e a vontade explodiu, mais no coração que no estômago. Comprou a pipoca e sentiu uma sensação diferente, leve envolvente. Uma energia lhe tocou, seus braços arrepiaram-se. Olhou buscando e viu os olhos dele, meigos, docemente amigos e verdadeiramente cortês. Sentiu-se tocada por algo forte que inspirava ternura, carinho...
 Afastou-se rapidamente, queria pensar conhecer aquela situação nova.
Ansiou a chegada de um novo dia quando fez o mesmo itinerário. Comprou pipoca e trocou um dedo de prosa com o pipoqueiro, Anselmo, o nome dele. Os dias se sucederam e a confiança surgiu linda, se renovando a cada dia. Foi difícil arrancar o Anselmo do trabalho e convencê-lo a caminharem pela vida.

Até que um dia ousou um pouco mais: passando na esquina da Rua da Felicidade esquina com a Rua Nova vida, viu a placa de um Motel “A vida começa agora”. Reunindo todas as forças convenceu Anselmo que entrassem, e ficassem mesmo que por breve instante. Anselmo obedeceu-a um tanto rubro e acanhado.

A intimidade estabeleceu-se não se sabe como e com tanta velocidade: ele beijava suas mãos e lambia entre os dedinhos, assim como fazem os gatinhos bebendo leite no pires. Ela ficou nua e Anselmo via seu corpo em minúcias, como se absorvesse uma imagem para eternizá-la. Olhava seus olhos e os olhos dele provocaram sorrisos nos seus. Úmida no que se pode dizer na melhor expectativa do amor, envolveu com as suas, as coxas do Anselmo e, em movimentos fortes e rápidos gozou... Riu de si mesma na precocidade do orgasmo.
Os movimentos foram acontecendo, toques, um mundo de acontecimentos que jamais pensou ser possível, apesar de sua excelente formação cultural e experiência com alguns homens. Sentiu que todos eram distantes e diferentes do Anselmo. Eles procuravam dinheiro e poder, Anselmo procurava vida, vivia para o amor.

N - Imagem, Tela do Picasso


evaldodaveiga@yahoo.com.br
Evaldo da Veiga


Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 17/08/2006
Reeditado em 20/05/2011
Código do texto: T218959

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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
952 textos (313613 leituras)
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Evaldo da Veiga