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Uma passageira em São Paulo


Hoje tem sol. Mas está frio.
Antes só fazia frio e chovia,
era garoa.
Sampa terra boa e estranha.
As pessoas se esbarram nas avenidas.
Os motoristas não conhecem, ou fingem,
as ruas que trafegam.
Lá vou eu. Sentada nos bancos detrás.
Abre a porta:
Bom dia!
Fecham as portas:
Boa noite...
Já perdi a conta.
O taxímetro roda, roda, roda.
Sete dias. 33 condutores.
A insegurança de ser enrolada.
O tempo perdido nos engarrafamentos.

R$ 3,60 – começa a corrida.

- Boa tarde. Quero ir para a Alameda Lorena.
- Qual altura?
- Entre a Campinas e a Pamplona, por favor.
(Até parece que sei o que estou dizendo)
Feito papagaio a repetir.
Ele pergunta:
- Vira aqui à esquerda?
(Xiiiii!!!!!!!)
(Não me prepararam para esta).
- Bem, o senhor decide, tá?
- Hein?!
- Pode seguir, obrigada.
Cidade grande.
Há uma semana aqui e sinto-me como uma bússola quebrada.
Saudades de Brasília?
Não. Lá está seco e quente. Época difícil.
O trânsito é que mudou. Carros demais. Deveriam proibir essa fabricação desenfreada.
O silêncio me incomoda.
Não trouxe o livro.
Desconheço o caminho.
Preciso me distrair. É primavera.
As eleições presidenciais se aproximam.
Faço a pergunta clássica das 32 viagens passadas:
- Ei moço! Vai votar em quem?
- Eu?!
(Se havia alguém mais eu não enxergava)
- Sim. O senhor vai votar em quem?
- Para presidente?
- Tudo...
- O que tá aí, pois não tem outro, né? E...o Maluf e talvez o Suplicy. Não gosto do PT. Para estadual o Melão.
- Ahn...
O FHC é quase unanimidade entre os taxistas, pelo menos. Um apenas votará no Lula.
Freada brusca.
Meu estômago revira ao grito da pastilha.
(Gasta ou nova, não sei!)
Mudez novamente.
Melhor ficar quieta. O papo político pode gerar acidentes.
Melhor observar.

R$ 8,80 - (Putz girou rápido)

Placas.
Quando era criança lia as placas.
Somava os números rapidamente antes dos caminhões serem ultrapassados.
Acho que era para ficar quieta.
Vinte anos depois leio placas para não ficar inquieta.
“Mar. Pinheiros”.
“V. Olímpia”.
Finalmente, “Alameda Lorena”.
- Transamérica Ninety, à esquerda, por favor.

R$ 9,80

Minha amiga entra no táxi.
- Olá Ká!
- Vamos para a “naite”?
- Yyyyyyeeeesssss!!!!!
- Boa noite. Para a Leopoldo Couto de Magalhães. Vamos ao Morro de São Paulo.
(Não é a cidade da Bahia, mas sua inspiração).
- É no Itaim Bibi.
A corrida segue.
Letreiros luminosos.
Postes enfeitados de cartazes políticos.
Grandes “outdoors” com as caras de Maluf, Covas, Rossi, e...

R$ 10,10

“Crayon – Molduras finas”.
(É bonita a fachada da loja).
20º , sinto calor.
“Vote Sampaio Dória 4542”.
- Vou dar uma voltinha para fazer um retorno ali e logo estaremos lá, ok?
- Ok.
(Dei muitas voltas nesses dias. Grande parte desnecessárias, talvez).
O pensamento gira igualmente.

R$ 10,90

Fila negra. O Morro está lotado.
Parece até que o nome atraiu o povo.
- Vamos para o bar “Kadim” então, por favor.
- Vou parar e olhar no guia. Acho que é no Itaim.
Íamos para o “Kadim” com sonhos de noite.
Mudamos o roteiro novamente.
Entre folheadas de páginas de ruas.
Agora, rumo ao Bar Des Arts.
“Vote Cunha Bueno 1161”.
“Selepark – Estacione”.
“Motorola” (outdoor).
“Iron Horse – Brahma Chopp” (outro).
“Tabapuã” (bairro).
Tomei uma “José Cuervo” na imagem do quê viverei hoje.

R$ 11,30

“Sérgio Davila ARQUITETO” (placa).
(Ainda resta espaço para construir prédios entre prédios).
O ônibus semi-vazio mostra que às 22:20, no meio do Faria Lima não é o povo quem trafega.
“Banco Real”. À direita.
“Banco Safra”. Ao lado.
Sonhos – em frente.
Prédios redondos arranham o céu.
Estacionamentos quadrados de vários andares suspendem os carros.

R$ 12,50

Mendigo pede um trocado.
Nós três não o atendemos.
Ele diz ao motorista:
- Quando você deixar as moças vai pegar um pescoço.
(Ahn?!?)
- O que é pescoço?
- É uma corrida rápida. Quando dá menos de R$ 5.
- Ah!

R$ 13,10

Passando pela Rua Jacuruci.
Carros importados enfileirados à porta de edifícios batizados americanamente.
Estou no Brasil globalizado.
(Estamos em São Paulo, setembro de 1998)
“Matéria Prima – Farmácia de Manipulação”.
Lembrei-me do escândalo dos remédios falsos e farmacêuticos fantasmas.
Que absurdo! Fico indignada...

R$ 13,90

“Vote Denise...”
Passou tão rápido que não vi direito o nome da candidata.
Logo adiante vejo outro poste com idêntico cartaz.
O número é 222....
À direita a Biblioteca Infanto-Juvenil Anne Frank.
A menina judia do diário do holocausto nazista.
Lembrei-me de mais um diário – Christiane F. - da garota que foi drogada e prostituída.
Decerto é para que as adolescentes leiam e não sigam o exemplo da segunda.
A literatura definitivamente é a melhor companheira.
Mostra os dramas humanos e as realidades cotidianas.
Mas é boa amiga.

R$ 14,70

Estou enjoada.
Deve ser o balanço, lombadas e os buracos do asfalto.
A cidade precisa reparos. E como!
Os rapazes fecham a loja da esquina.
Já é tarde. É noite.

R$ 15,30

- Acho que o bar “Das Artes” é logo ali.
(Des arts, moço, Des arts e não Das Artes). Fazer o que?
- Ramram.

R$ 16,20

Quero tomar uma caipirinha de frutas e esquecer da vida.
E conversar, conversar, conversar.
Logo à esquerda a última placa observo.
(Chama-me à atenção).
“Estacione. Tranque e leve a chave”.
Finalmente chegamos!

R$ 16,90

- Pode ficar com o troco.
- Boa noite.
- Boa noite.
Aqui vamos nós São Paulo!
Às vezes é melhor ser uma passageira.
E, fica o aviso:
“Estacione. Tranque e leve a chave”.


Solange Pereira Pinto (26.09.1998)
Crônica premiada na Internet à época.
Solange Pereira Pinto
Enviado por Solange Pereira Pinto em 18/08/2006
Código do texto: T219005
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Sobre a autora
Solange Pereira Pinto
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
59 textos (37618 leituras)
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Solange Pereira Pinto