A MÃO DE DEUS

Dias atrás, ao descer no jardim, reparei que os pés de beijos estavam precisando de uma boa poda. Busquei a tesoura, sem saber por onde começar, pois os galhos se embolavam por entre as grades. Tantas e tão belas estavam as flores, que titubeei em começar a fazer o serviço.

Vi que uma ave, ao me perceber a presença, voou rápida por entre as folhas e foi-se abrigar num galho de uma árvore na praça defronte, como que me observando os movimentos.

Ignorando-a, passei a abrir e separar os galhos, para identificar um espinheiro, cujas folhas se entremearam às demais, até que uma surpresa maior me aguardava: havia ali um ninho de passarinho, um emaranhado de raízes bem entrelaçadas, guardando em seu bojo apenas um ovinho. Chamei meu marido e, de uma maneira discreta, mostrei-lhe o achado, sem chamar a atenção de meu filho que podia, sem querer, prejudicá-lo com a sua curiosidade. Não sei se por uma intuição, pressenti que se o tocasse, poderiam os pássaros abandonar esse ninho.

Desisti do serviço, até da retirada dos espinhos e passamos os dois a pajear diariamente a promissora cria e a monitorar a presença do casal de passarinhos, nas suas idas e vindas alternadas. O macho vinha menos. A maior parte do tempo, ficava numa árvore da praça, dando pulinhos verticais, vários por minuto, da mesma altura e estilo, subindo e descendo no mesmo lugar. Nunca vira nada assim. A fêmea era maior, mais emplumada e mais acinzentada e mais presente também. Resolvi pesquisar para identificar o pássaro e encontrei o seguinte:

“Tais pássaros, adultos e jovens, fora da época reprodutiva, são pardo-oliváceos no dorso e levemente amarelados no abdômen, com estrias no peito e flancos. Os machos adultos, durante a época de acasalamento, assumem uma brilhante plumagem nupcial preto-azulada, com uma mancha branca nas penas axilares. Estes são facilmente reconhecidos nesse período, pois, além da coloração nupcial vistosa, executam uma exibição que consiste de pequenos voos verticais, ao mesmo tempo em que fazem vocalização da qual resultou seu nome: "tis-ziu". O ato é repetido insistentemente, sobre o mesmo poleiro, em média cerca de 12 a 14 vezes por minuto, e com pequenos intervalos entre as repetições. Essa exibição é executada principalmente durante a época reprodutiva da Volatínia Jacarina, Tirizil ou Tizil. Através das exibições, os machos delimitam seus pequenos territórios, também atraindo as fêmeas para o acasalamento. O ninho, feito com raízes emaranhadas e com formato de taça, é construído dentro do território do macho, sempre a 50cm ou menos do chão, recebendo normalmente uma postura de dois ovos. Tanto o macho quanto a fêmea participam dos cuidados com os filhotes.”

Passados mais alguns dias, esclarecida a sua etimologia e hábitos, apareceu mais um ovo. Os cuidados e a presença dos pais também se redobraram, a princípio meio arredios, mas, com a frequência, passaram a nos ignorar.

Noutro dia, enquanto molhava os canteiros, no lusco-fusco da tarde, para minha surpresa, lá não se encontravam os ovos, mas dois filhotes minúsculos, quase imperceptíveis, mas, vivos, no fundo do ninho, com os bicos abertos, esperando sua fração diária de comida. Pouco depois, chega a mãe-passarinho, para alimentá-los.

Na última visita percebera que estão emplumadinhos, mais espertos, momento em que senti feliz em ter eles escolhido meu jardim para aumentar a sua prole.

Na tarde do mesmo dia, armou-se um temporal, precedido por uma ventania incomum, fechei a porta às pressas, mas, como era inevitável, lembrei-me dos filhotes ao ar livre. Orei a Deus que não os livrasse de cair no chão, tamanha fragilidade do ninho diante do vendaval. Mas o mesmo pressentiu a mãe deles, pois, quando consegui verificar, ela estava lá, cobrindo-os e os aquecendo com o calor de seu corpo. Resistiu ali bravamente a mercê do tempo e das intempéries por horas.

Achei aquela cena maravilhosa e senti a mão de Deus cuidando da natureza, com toda perfeição que lhe é inerente, e me lembrei do Sermão da Montanha, que expressa os mais importantes conceitos do cristianismo, da beleza dos lírios do campo que não fiam e que Deus cuida das ervas que acabam no fogo e de todas as aves.

Foi um momento de pura reflexão, onde reconheci como o ser humano somos insatisfeitos nos nossos desejos, nem sempre contentamos com o que adquirimos... O necessário não nos basta, queremos também o supérfluo: É quando a Providência entrega o homem a si mesmo. Frequentemente, ele se torna infeliz por sua própria culpa, e por não haver atendido às advertências da voz da consciência. Deus permite que ele sofra as consequências de seus atos impensados, para que isso lhe sirva de lição no futuro.

Todos sabemos que a terra produz o suficiente para alimentar a todos os seus habitantes, isso seria o ideal, se todos soubessem administrar a sua produção, segundo as leis da justiça, caridade e amor ao próximo.