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O Homem e o Mundo

Olho para dentro mim e me vejo um homem parecido com o mundo.
Tenho meus momentos bons e meus momentos ruins. Na verdade não sou bom e nem ruim: sou humano. Sou sujeito de atos heróicos, mas também de omissão; de verdade e de dúvida; até de inverdade, diante de uma ou outra circunstância. Porém nunca de forma deliberada.
Premido por uma ou outra razão, posso cair em tentação. E em contradição. Até ignorar os escrúpulos. Em sã consciência não maltrataria uma borboleta, não pisaria uma centopéia. Creio que assim são todos os seres humanos. Nascemos puros, despreocupados com quaisquer juízos de valor: nem moral nem imoral. Na verdade nascemos amorais. O mundo é que nos artefaz. Artefatos é o que nos tornamos. Manufaturas. Agentes ou pacientes. Pelos estímulos, conscientes ou inconscientes, tornamo-nos obras de arte, de artesanato, utilitários, caricaturas... exterior conforme a forma (fôrma) que se nos impõe. Se utilitários, com o tempo, se não nos regenerarmos, talvez até possamos nos tornar sucatas, matéria de decomposição e reciclagem. Ou até de absoluta desintegração, tornando-nos inidentificável em nossa forma anterior, vez que de nossa decomposição e desintegração absoluta voltamos à nossa forma pré-molecular. Transcendental? Espírito? Alma?
Tudo depende (e dependerá) da graciosidade e generosidade do Senhor dos tempos e dos espaços e de seus elementos atômicos ou de energia.
Ninguém é somente herói, nem somente covarde; nem somente santo nem apenas sujeito de tentação ou pecado. Até os bandidos, ainda que os mais cruéis, podem ter seus laivos de bondade, de heroísmo. Que o digam suas mães ou seus filhos. O virtuoso pode se confundir e também praticar atos nem sempre louváveis. Atos que fariam corar Abaporu ou a Vitória de Samotrácia.
Tenho consciência de que muito do que fui ou fiz ficará na escuridão, ausente da luz dos olhos de muitos. Talvez na escuridão de meus próprios olhos. Por deliberação ou por defesa do subconsciente.
Não há neste escrito a pretensão de ensinar, nem de ridicularizar, de acusar ou defender pessoas ou idéias. Aqui não sou contra e nem a favor. Apenas sou. Ou apenas estou? Trata-se de texto despido de quaisquer intenções sectárias, contra ou a favor, em termos de valoração de condutas. Nem moral, nem imoral. Preferiria fosse ele amoral, como uma criança, sem nenhum juízo de valor, qualquer que seja.

Os registros seguintes servirão apenas para contribuir para eliminar alguma forma equivocada de minha trajetória pelos caminhos retos ou tortuosos por que passei. Talvez o testemunho para minhas filhas e eventuais netos que surgirem, para não saberem de mim somente o que os crédulos ou incrédulos disserem. Aqui vou desmistificar conceitos ou preconceitos que de mim fizeram ou fazem e também até alguns meus próprios.
Alguém poderia questionar se não estaria cedo demais para que eu começasse a escrever minhas memórias. Talvez de fato esteja. Entretanto, como já plantei algumas árvores, escrevi alguns livros e sou pai de duas filhas, de duas maravilhosas filhas, no figurino da filosofia já posso morrer. Não que eu esteja entregando os pontos ou desistindo da luta. Entendo que muito ainda tenho por fazer. Ainda que eu já tenha cumprido o requisito da vida (plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho), não tenho pressa de me despedir dessa existência. Como diz um dito popular, se a morte for o descanso prefiro viver cansado. Até mesmo porque, embora tenha sido educado na fé cristã, embora tenham me ensinado que tenho uma alma imortal que irá para o céu ou para o inferno (pela obviedade, prefiro que vá para o céu), na verdade de nada estou certo.
Se há ou não vida após a morte é um mistério para mim. E se há ou não, de nada adiantará eu crer ou não. Não será pelo fato de crer ou não crer que tudo ou nada será diferente ou igual, se transcendental ou não. Será porque será. Apesar de mim. Como também diferença nenhuma fazem os motivos de tantas contendas, tantas discussões, sobre essa ou aquela verdade sobre Deus; sobre como ele fez o mundo e o homem; se o homem é produto de criação ou tão somente de evolução. Aliás, a propósito desse detalhe, criação ou evolução, estou convencido de que o mundo e o homem são frutos de criação e de evolução. Analisemos as duas hipóteses.
Imaginemos, em primeiro lugar, que o homem fosse produto apenas da criação. A meu juízo tal afirmação seria até uma forma de negar os próprios ensinamentos teológicos. Seria negar a bíblia dos cristãos que, no livro de Gêneses, nos ensina: crescei e multiplicai e dominai a terra. Nestes ensinamentos já não está implícita a evolução? Negar a evolução é negar os próprios ensinamentos bíblicos. É negar que o homem, na hipótese da criação, pudesse ser dotado de razão, de inteligência. Na própria palavra crescer está inserida a evolução. A evolução de todos os seres. Não somente evolução dos humanos.
Aliás, a propósito da evolução dos humanos, cabe questionar até em que ponto são, na verdade, racionais e inteligentes. Apesar de o próprio homem estar por aí propagando que ele é o único animal inteligente, racional. Como se pode entender por racional e inteligente um animal que destrói seu próprio habitat, no caso a terra, com poluição de todo gênero e espécie? Como se pode entender por racional o animal que destrói a si próprio, ao destruir seu meio ambiente, o meio de perpetuação de sua espécie? Ao destruir a terra o homem destrói a si próprio.
O auto anunciado ser inteligente e racional não se contenta em apenas destruir a terra. Já começa a enviar seus artefatos para exploração de outros mundos, a começar pelo satélite da Terra e planetas mais próximos. Na medida em que o homem for conquistando outras dimensões espaciais poderão lá deixar o germe da destruição. Aliás, reforçando este argumento, já em há órbita terrestre um razoável volume de lixo espacial, de resquícios de engenhos mandados pelo homem. A serviço do próprio homem, como tentam justificar seus ousados idealizadores, patrocinadores e artífices.
Na tentativa de conclusão dessa assertiva de que o homem, mesmo na hipótese da criação, não exclui a evolução, reafirmo minha crença neste ponto de vista. Ainda que a evolução do homem possa conduzi-lo para sua própria destruição como animal humano em seu habitat, a terra.
Alguns exemplos de que a própria evolução traz em seu âmago o germe da destruição está na própria história humana. Para nos certificarmos dessa verdade basta notarmos que todos os povos da terra de que se tem registro histórico, na medida em que chegaram ao apogeu, ao ponto máximo do que consideraram estar, entenderam por ignorar os mais frágeis, e até os dominaram, e, pela própria dominação, começaram a ruir, vítimas de sua própria ânsia de hegemonia. E ruíram todos eles. Quanto mais cresceram, quanto mais subiram, mais desceram. Mais eles caíram. Casos concretos? Apenas alguns: a histórica civilização egípcia; a civilização grega; o império romano; a hegemonia ibérica de Portugal e Espanha de meados do segundo milênio, e tantos outros.
Cada povo, na tentativa de dominar o restante do planeta, cavou sua própria queda. Sua própria ruína. Houve casos em que ficaram apenas registros históricos de dominação, restando-lhes o consolo de terem apenas contribuído para o surgimento de novas civilizações, influenciando-lhes a cultura. É o exemplo da civilização helênica.
Hoje, enquanto registro essas impressões, a hegemonia é buscada pela nação do Tio Sam. E amanhã? Voltará o eixo das atenções para uma nação européia, como em tempos idos? Ou ressurgirá uma nação árabe de dominação? Poderá ser a China? A Índia? Ou será uma nação africana? Alguma nação da Ásia Oriental? Da Oceania? Ou da América do Sul?

Ao retomar a questão da origem do mundo e do homem, passo a questionar a outra hipótese: a evolução pura e simples. Salvo juízo contrário, é de Lavoisier a frase que ensina: no mundo nada se cria, nada se acaba. Tudo se transforma. Aí pode estar uma suposta chave da teoria da evolução da humanidade. A terra veio de um processo evolutivo. Os animais, inclusive o homem, são frutos dessa evolução.
Até aí tudo bem. Passemos a questionar a própria tese da evolução: se nada se cria e nada se acaba, significa dizer que existiu e existe um processo evolutivo de tempos imemoriais. Até aí, também aceitável. Entretanto, façamos um exercício de imaginação. Voltemos no tempo. Façamos um exercício de regressão. Não de séculos, mas de milênios. Talvez bilênios.
Voltemos ao tempo em que, para os cientistas, o mundo fosse nada mais que apenas uma molécula, sobre a qual teria recaído o processo evolutivo. Vamos aquém: cheguemos ao ponto em que nem molécula houvesse, mas apenas um átomo. Ou menos ainda: apenas prótons, nêutrons ou elétrons. Ou menos ainda: partículas infinitamente menores que qualquer uma conhecida pelos cientistas de hoje, partículas que talvez viessem a ser conhecida pelos cientistas do futuro.
O próprio pensamento lógico nos ensina que, se tudo se evolui de algo que o antecedeu, por mais remoto que seja o tempo de regressão, momento chegaria em que não teria do que se evoluir. Seria o nada, o vazio, o vácuo infinito e absurdo. Nada teria do que se evoluir. Nesse momento encontraríamos a mão do Criador. A mão de quem sempre existiu. E, se sempre existiu, sempre existirá. Até para justificar a própria ciência: nada se cria nada se acaba. Se sempre existiu conseqüentemente sempre existirá.
A limitação de minha inteligência diz que a esse ser ou SER é que posso entender como Deus.
A propósito de Deus, surge outra questão: qual é a forma de Deus? Tem ele a forma de um homem, como diz a bíblia? (E fez o homem a sua imagem e semelhança). Até em que ponto é imprescindível, para se crer em Deus, que eu tenha sido feito a imagem e semelhança dele?

Considerando os olhos da fé, a conseqüência dos ensinamentos e da reflexão de minhas limitadas circunstâncias diante da grandiosidade do saber universal, diante da suprema inteligência contrastante com minha pequenez, apesar desses contrastes, atrevo-me a dizer que desimporta a mim a forma material de Deus. Aliás, não imagino Deus dentro de uma forma  (isso mesmo, fôrma). Para mim não importa se ele tem forma de raio, de sombra, de átomo, de qualquer ser imaginável.
Desacredito no ensinamento segundo o qual Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Até porque isso não é para mim importante. O que importa é que, sendo a suprema inteligência, sendo onisciente, onipresente e onipotente, qualquer outro detalhe é mero detalhe de insignificante valor diante da totalidade que creio ser Deus.

Mas... e a bíblia? A bíblia, diante dessa visão que acabo de deixar, perde sua importância? Resposta negativa. Ela continua sendo importante, embora para mim sejam desimportantes detalhes como nos foi ensinado nela sobre o processo criativo do homem. Muitos exegetas e pregadores querem nos repassar o entendimento literal do texto bíblico, machista, discriminador, autoritário.
Isso tudo não invalida a importância da bíblia. A idéia masculina que bíblia deixa transparecer da suprema pessoa de Deus não me importa. Não me é importante se Deus é de natureza masculina ou feminina. Na verdade não tenho idéia de imagem sexual de Deus e nem importância faço disso. Não duvido do fato de ter sido a bíblia inspirada por Deus, mas também não nego outro fato: o de ter seus escritores impregnado nos textos bíblicos marcas das respectivas culturas. Por exemplo: por que não há registro de nenhum livro bíblico escrito por mulher? Por que entre os apóstolos de Cristo não houve nenhuma mulher? Por que, no comando doutrinário das religiões, dos diversos ismos, como os do hinduísmo, do islamismo e mesmo do cristianismo (católico ou evangélico), a mulher tem sido figurante nos comandos, nunca protagonista. A administração dos ofícios espirituais, doutrinários e do patrimônio sempre estão sob o comando masculino. Tudo isso por desígnios de Deus ou por resquícios de culturas machistas?

Longe de mim a idéia de titular da verdade, assim como também distante esteja de mim a idéia de aceitar como única verdade a que me é imposta. Seja pela tradição ou pela dominação. Seja ela de que forma for.

Na verdade cada povo contribuiu e contribui, de alguma forma, para novas fases da história, como ensina o pensamento lógico-filosófico: a uma tese contrapõe-se a antítese, do que advém a síntese e esta, por sua vez, constitui-se em nova tese, reiniciando o processo dialético da vida.
Professor Faria
Enviado por Professor Faria em 04/06/2005
Código do texto: T21997
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Sobre o autor
Professor Faria
Caçu - Goiás - Brasil, 67 anos
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