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Ela se chamava Tulipa

                  Mudamos para a casa nova em londrina depois de quase 10 anos no Japão e não conhecíamos a cidade, não conhecíamos ninguém também, nem mesmo os vizinhos. Vínhamos de cidade pequena, onde todo mundo se conhece, “bom dia”, “Olá Dona Branca...”, mas ali... estávamos em nosso pequeno mundinho, sós, eu, minha mãezinha e meu pai.
                 Um certo dia, apareceu uma visitante e foi amor à primeira vista. Uma gatinha que surgiu miando, como se dizendo “Olá, povo... sejam bemvindos...” que foi chegando, acomodando-se e conquistou todos na casa. Minha mãe, que sempre toma a liderança em tudo, já nomeou nossa hóspede: “Tulipa. Ela vai se chamar Tulipa...” e eu, como sempre, retruquei: “Mas mãe, Tulipa é nome de flor... Vai pôr o nome da gatinha de Tulipa? E se ela já tiver um nome?” , mas minha mãe não se importou: “Já que a gente não tem jardim, agora ela vai ser nossa Tulipa...”
                  E assim Tulipa, já nomeada e batizada, não saiu mais de casa. Ela era nossa atração e nossa companheira, com sua delicadeza, simpatia e seu jeito feminino de caminhar devagar pelos cômodos. Quando meu pai se sentava em frente a casa, na rampa da garagem, para observar as pessoas passando, Tulipa se colocava ao seu lado e os dois apreciavam juntos o movimento da rua. Quando meus pais iam dormir, lá estava Tulipa, dormindo entre eles. Muitas noites, quando eu tinha que estudar até tarde da madrugada, Tulipa me fazia companhia e, deitada no braço do sofá, ficava me olhando, quieta. Às vezes ela tirava um cochilo, mas entre um sonho e outro, Tulipa me assistia quebrar a cabeça e eu não poderia ter companhia melhor. De manhã cedo dava bom dia a todos na casa, miau aqui, miau ali. Até mesmo os cachorros da rua não se importavam com a presença de Tulipa, passavam calmamente pela calçada e não se ouvia um latido. Perdi as contas de quantas vezes ouvi dizerem: “Olha, eu não gosto de gatos, mas a Tulipa é uma gracinha...” claro, sempre pensei que Tulipa não era somente uma gatinha como todas as outras, ela tinha algo especial... Parecia uma pessoa que vivia no corpo de um animalzinho. Quantas vezes conversei com Tulipa, contei-lhe meus segredos e ela ouvia, olhando bem fundo em meus olhos, atentamente como uma amiga...  depois me dava um gesto de consolo, pulando em meu colo e passando a cabecinha em meu braço.
                     Lembro-me do dia em que Tulipa teve seus filhotinhos, foi uma festa e ao mesmo tempo um desespero. Minha mãe gritava para eu ir ver se ela estava bem, dando a luz num canto do quarto, e assim, eu acompanhei o nascimento dos seus dois primeiros filhos. Entretanto, estranhamente depois do parto, Tulipa vivia entre nossos pés, miando desesperadamente, pedindo ajuda, mas não sabíamos o que era. Um dia e meio depois, Tulipa teve mais um filhinho e foram três ao todo. Infelizmente, um deles morreu dias após e tivemos que esconder o corpinho num embrulho de jornal, para que ela não visse a gente saindo com seu filhinho. Contei três dias que Tulipa chorou a morte de seu filho, cortou-me o coração.
                   Tulipa viveu quase 15 anos e morreu lutando bravamente contra o câncer. Já no final, não conseguia mais comer, miava de dor e me pedia ajuda. Não pude ajudar. Não mais, conseguia melhorar sua comida, amassando-a bem e que, algumas vezes, no auge do meu desespero, tinha que dá-la através de uma seringa, pois Tulipa sentia muita dor e se recusava a comer. Foram muitas cirurgias, remédios e tratamentos... Ainda consigo me lembrar do rosto de meu pai, oriental, filho de japoneses, que não costumam demonstrar seus sentimentos, lembro-me de sua tristeza no dia em Tulipa se foi. Já não tinha mais sua companheira. Meu pai nunca mais se sentou na rampa da garagem. Nunca mais assistiu o movimento da rua... Sei que minha mãe ainda sente falta de sua presença, fazendo comida na cozinha, ela sentada num canto, assistindo. Hoje resta um retrato de Tulipa na estante da sala, do lado da televisão, em meio às outras fotos de amigos e parentes... Resta a lembrança de Tulipa, que nunca será esquecida...
Gilmar Takano
Enviado por Gilmar Takano em 19/08/2006
Reeditado em 04/07/2007
Código do texto: T220250
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Sobre o autor
Gilmar Takano
Londrina - Paraná - Brasil, 40 anos
19 textos (2515 leituras)
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Gilmar Takano